quarta-feira, 21 de julho de 2010

Cultural demais!

Algumas semanas atrás, no janelão do MSN pra juntar a galera da SBPC 2010 por ocasião da reunião aqui em Natal, um cara reclamou da programação cultural do evento. Não tinha Elba Ramalho, Aviões do Forró nem similares. Achou a programação "cultural demais", com coisas de velho e sem atrativos pros estudantes. Tentei argumentar, em vão, que tinha muito material bom e que tava tudo OK, mas o resto da galera fez coro e fiquei sobrando aquela noite. Ajuntei: é pra beber ou pra se divertir? Parece que as reticências indicavam a primeira opção...

E não é que lembrei de algo parecido em João Pessoa, quando estava no ENEL (Encontro Nacional dos Estudantes de Letras) realizado nos dias 10 a 17 de julho últimos? Ouvi em alguma noite, não lembro ao certo em qual das festas (a memória oscila entre Norte, realizada no domingo, e Centro-Oeste, na segunda), mas o tom de reprovação era o mesmo. A situação era ainda pior, porque as festas e o equipamento de som só eram liberados até duas da madruga, para raiva de alguns e alívio de outros (e conformismo forçado de uns outros, como eu). E, de forma parecida, nem todo mundo curtia as festas como gostaria.

Putaria é bom e eu gosto. Aliás, rolou bastante dela no ENEL - ainda bem! Galera do Rio tirando onda com os proibidões e os pot-pourris em ritmo de samba perto do aloja, o tambor de crioula e o cacuriá do Maranhão, o povo do Sul lubrificando os enelianos... Num encontro de estudantes feito por estudantes e para estudantes, a mistura rolou solta. Foi um modo oportuno de compensar os horários curtos das apresentações regionais, principalmente do Nordeste - já pensou, nove Estados mal terem tempo de mostrar sua cultura? De forma que não acho que a programação cultural foi lá tão elaborada, mas os estudantes se movimentaram como puderam; muita gente se divertiu, e (desculpem o cálculo utilitarista barato) foi feito o maior bem possível para todo mundo.

Agora, quanto à SBPC, é capaz que eu pegue a pecha de aristocrata, pedante, elitista ou coisa do gênero. Já disse: adoro putaria. Vou no Iutúbis procurar Gaiola das Popozudas, UDR, Mamonas Assassinas e o escambal pra escutar; na hora do forró mesmo, nem ligo pro repertório, contanto que tenha mulher a fim de dançar. Só que, sinceramente, não dá pra fazer zoeira em todo canto, né? Além do mais, se é pra ter o direito de escolha e espaço pra novidades, tem mais é que fazer coisa decente. Só pela abertura: Zeca Baleiro e Tom Zé. Zeca Baleiro é bem conhecido do público brasileiro, suas composições são ótimas e tem um bocado de gente que conhece; mas, e Tom Zé? Putz, o cara é o único da Tropicália que se manteve no lado B e com boa produção, além de ser razoavelmente simpático a coisas como É o Tchan (vi isso numa entrevista que ele deu a... Bom, lá no site dele tem a entrevista, depois boto um link pra ela). E quase ninguém ouve falar. Tá bom, podia botar Elba Ramalho também... Mas por que Aviões do Forró? Eles já não fazem shows direto por aí? Tem que vir justamente pra SBPC? Deus é mais!

Primeiro: duvido muito que a coordenadora da SBPC Cultural queira botar bandas desse naipe na programação. Segundo, mesmo que quisesse, duvido muito que tivesse orçamento suficiente pra pagar o cachê. Terceiro, se tivesse os dois, será que a repercussão seria boa? Duvido mais ainda; eventos como a SBPC não são lugares pra mais do mesmo, quando tem um monte de gente fazendo trabalhos bacanas e de agrado a muita gente!

É bom lembrar que só tô falando de música. Deixei de lado teatro, dança, artes visuais, cinema, literatura... Navegar é preciso, pesquisar é preciso, se divertir (1) é preciso - mas também é preciso abrir espaço pra diversão de boa qualidade. Tá, ainda o papo de aristocracia? Minha gente, basta que o produto arranque a gente do cotidiano ao invés de nos fazer mergulhar nele (ou, pelo menos, fazer mergulhar depois de nos arrancar)! Infelizmente, gosto não se discute, se lamenta. Mas estarei junto com a galera da SBPC curtindo a cultural assim mesmo.

(1) Não vejo a hora de comprar a Gramática do português brasileiro, de Mario Perini. Já veio tarde um manual pra garantir que não há nada de errado com os sinclitismos pronominais do português brasileiro.

2 comentários:

Arthur Cortês disse...

Verdade seja dita, camarada, mas a galera quer se servir no fast-food musical...

Musicas da moda tem vida curta. Os artistas selecionados na SBPC Cultural, ao meu ver, foram consolidados pela crítica e público e que, teoricamente, deveriam agradar a todos.

Afinal, não são apenas os jovens que frequentam esses lugares. Acredito que o evento foi mais "família".


E me arrisco na opinião de que como seria possível um "controle social", na magnitude do evento, se colocasse uma banda que canta em apologia a inconsequencia alcóolica e libertinagem sexual?

Adorei o termo "cultural demais", talvez se oponha ao "comercial demais"...

Um grande abraço do Sr. Arthur

Lu Rosário disse...

Ei Lázaro, não tinha lido essa postagem ainda, E não tenho como não concordar contigo neste quesito.. se eu estivesse nesse janelão também sobraria..rsrs

Quando vi a programação cultural do evento achei um barato, saberia que me debateria com a cultura popular potiguar..coisa que não conhecia. Além de ter a certeza de que estaria em um ambiente que agregaria as diversas manifestações artisticas. Quando fui ao SBPC, pensei.. É coisa boa demais, infelizmente não poderia ver tudo.... e realmente pouco vi, mas valeu a pena. E ainda quero poder ir em outros eventos como este, vale muito a pena.
Ah! E isso também não significa que não gosto de uma putaria... Oh! Gosto demais! E um forrozinho, hein Lazo? Nos acabamos nele!

Beijão!

Baú de traças