domingo, 19 de agosto de 2012

Obrigado por dançar

Um dia desses, fui na casa de uma aluna da academia onde faço aula de dança de salão. Ela tinha chamado uma galerinha pra se divertir, praticar, etecétera e tal... Foi bacana, mesmo não tendo dançado tanto (na verdade, ficamos mais fofocando). Tudo seria extremamente corriqueiro se não fosse um detalhe. Tirei uma garota pra dançar, dançamos, nos divertimos - e, ao final da dança, agradeci. Ela replicou que não precisava disso, já que não estávamos em aula. Repliquei, mostrando que ela estava equivocada em pensar assim. Vejamos por quê.

O primeiro motivo é bem simples: se trata de um princípio elementar de cortesia. Não digo etiqueta porque essa palavra implica um princípio de forma. Regras de etiqueta visam elegância, e o povo costuma se esquecer que elegância e cortesia não são necessariamente sinônimos; quem é cortês sempre é elegante, mas elegância não implica cortesia. Cortesia, por outro lado, diz respeito a uma aproximação afetiva entre os indivíduos e propicia a criação de laços duradouros. 

Existem, obviamente, gestos que podem oscilar entre uma coisa e outra, como o aperto de mão, que pode ser usado tanto pro forma quanto pra demonstrar carinho. Agradecer pela dança é um deles. Dizer "obrigado por dançar" significa "obrigado por me emprestar seu corpo pra eu me divertir, fazer você se divertir e, finalmente, nos divertirmos juntos". Ou pelo menos deveria significar, supondo que a experiência da dança foi bacana. E o segundo motivo é este: facilitar que outros momentos de diversão apareçam (no mesmo baile ou em outros). Nesse sentido, o agradecimento é tanto mais sincero quanto maior foi a intenção de se divertir - mesmo que isso implique alguns tropeços na execução dos passos.

Talvez eu esteja sendo um pouco auto-ajudístico, mas isso está longe de chegar nesses manuais. Dança de salão, entre outras atividades, pode muito bem fazer um praticante largar Augusto Cury de lado - pra não dizer o Rivotril. Um de meus professores começou na dança de salão por acaso, como terapia pra acelerar a recuperação de uma cirurgia (ele se queimou feio num restaurante que trabalhava no Rio e perdeu uma parte da pele facial). Nada como uma profilaxia social, não é mesmo? 

Enfim, acabei convencendo a garota da importância dessa prática. Obrigado por dançar. Obrigado pela leitura. Obrigado por me aturar.

2 comentários:

Paulo Evidance disse...

Parabéns, Lázaro, por sua visão lúcida da ética na da Dança de Salão. Creio que você já atingiu a 4ª fase do aluno da dança de salão: dançar por prazer e se a música for boa, o piso for bom e a dama for maravilhosa!

Thayza Teixeira disse...

Nunca mais tinha parado por aqui, Lázaro. Mas devo dizer que todas as vzs q paro, consigo deliciar-me na leitura... Vc é um cavalheiro msm! ^^

Baú de traças