sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Planejamento familiar: mensagem para 2009

Pensei: como começar este 2009 com um pouco menos de estupidez? Como tornar o ano do Sol (não liguem para devaneios astrológicos se não quiserem) menos insípido, mais humano etc.? Uma boa é seguir o exemplo de Macchiavelli: evitar as desgraças futuras estudando as passadas.

Veio a minha cabeça uma série de reportagens no Fantástico com o médico Drauzio Varella. Não lembro se versavam sobre vários tópicos ou um só; de qualquer forma, uma delas me chamou bastante a atenção. O tema já é pisadíssimo, mais conhecido que seringa em hospital; porém, não houve como não ferver diante da entrevista.

Planejamento familiar. Como ter filhos? Quando ter filhos? Com quem ter filhos? Onde ter? Quantos ter? Qual o custo da prole? Qual a disposição em güentar chororô? Sei não. Fico muito com o pé atrás em duas situações: ou quando sobra vontade e falta infra-estrutura, ou o contrário. Fico com o pé mais atrás ainda quando as duas coisas faltam. Fico mais cético ainda quando, assistindo à entrevista de Drauzio Varella com um morador duma favela paulistana, este declara que não sabe o que é camisinha.

Como assim, não sabe o que é camisinha? Falta propaganda? Falta criatividade? Provavelmente. Mas boca-a-boca é a melhor publicidade do mundo, por ser a mais barata. Aí eu pergunto: como, numa das maiores cidades do mundo, um indivíduo como esse não sabe o que é um pedaço de látex lubrificado? Nunca ouviu falar? Duvido muito. Como isso é possível? Para mim, não tem outra explicação mais plausível - ou seja, humana: o homem não usa camisinha porque não quer. Não usa por conta daquela onda de chupar bala com papel, de querer ser másculo a todo custo - provando-o com o gozo dentro da parceira -, ou simplesmente porque a preguiça mental é forte o suficiente para esterilizar qualquer sentimento de curiosidade saudável.

É então que, puto com esses homens e mulheres (não saberia avaliar no momento quem vacila mais, mesmo com as estatísticas sendo mais favoráveis a elas) que não seguram a onda, sabendo que o tranco com os bruguelos não será fácil (não com as crianças que, voluntária ou involuntariamente, engordam os indicadores negativos do IBGE, OMS e o escambal); é então que me vem a idéia de postar algumas linhas de indignação e apelo: por que não planejar? É tão difícil assim pesar o orçamento e tomar alguns cuidados contraceptivos, para evitar gravidezes indesejadas e abortos? Bate uma tristeza danada quando a resposta é afirmativa...

Não sou algum neomalthusiano ou empregado da Rockefeller Foundation. Mas gostaria muito que os indivíduos saíssem desse torpor afetivo e tomassem mais cuidado com suas atitudes. Em um texto criticando a Igreja Católica (o que não vem ao caso), Bertrand Russell sintetizou, contundente, uma deontologia elucidativa a respeito do planejamento familiar: "
Dever-se-ia ensinar aos rapazes e às moças que nada, salvo uma inclinação recíproca, pode justificar as relações sexuais. (...) Deveriam aprender que trazer um outro ser ao mundo é assunto muito sério, e que isso só deveria ser feito quando houvesse razoável perspectiva de que a criança pudesse gozar de saúde, de bons ambientes e de cuidados por parte dos pais. Deveriam também aprender métodos de controle da natalidade, tendentes a assegurar que as crianças só viessem quando fossem desejadas. Deveriam, finalmente, ser esclarecidas quanto aos perigos das doenças venéreas e quanto aos métodos de prevenção e cura. O aumento da felicidade humana, que se poderia esperar da educação sexual ministrada nessas bases, seria incomensurável." (1) Não reclamem da citação; mais comprida que ela é nossa teimosia em manter as coisas do jeito que estão. Um ótimo 2009, com mais planejamento familiar, afetivo, econômico (se bem que a crise global tá restringindo os esforços para este aqui) e vergonhal para vocês.


(1) Aquilo em que creio, em Por que não sou cristão.

2 comentários:

Lu Rosário disse...

O Planejamento familiar é algo muito importante sim. Vc disse bem. Quantas crianças estão por aí em situação sub - humana, quantos usam drogas e se tornam delinquentes, roubam, assaltam, matam.. muito disso é resultante de familias que crescem sem planejamento algum. São pessoas que crescem á margem da sociedade, sem uma vida honesta. Não conhecer camisinha no mundo globalizado de hoje é praticamente impossivel, a questão é essa "Chupar bala sem papeol é mais gostoso", mas e depois? É gostoso gerar uma criança e jogar no mundo?

ana poeta. disse...

Lázaro.

Vim ao seu blog por puro acaso, mas não é por acaso que resolvi deixar coment, seu texto trouxe mais uma entre tantas inquietações que permeiam a mente do ser humano, mas o que de fato me fez redigir esse ponto de vista, foi algo peculiar, acredito que tenhas escrito esse texto, justamente por isso, para levantar debates a cerca do assunto em questão, (re) li algumas vezes e encontrei vários pontos positivos e negativos, em relação ao mesmo, vejamos: concordo com você que o tema é "batido", também concordo que é inconcebível num mundo dito "globalizado" alguém desconhecer o que é um preservativo de “látex lubrificado”, mas discordo plenamente quando você ousa dizer que a culpa por alguns indivíduos no caso, (homem/mulher) não ter a mesma parcela de responsabilidade quando geram uma criança num ambiente dito ou visto por alguns como inadequado, contraditório e que tudo é resultado da falta do tal “planejamento familiar” e etc e tal. Acredito que seja qual for a forma que este veio ao mundo, ambos (casal) tenham a mesma parcela de contribuição, é preciso um óvulo e um espermatozóide para que resulte num fruto com ou sem planejamento. Não é só culpa de uma mulher ou de um homem; é de conhecimento de todos que tenham prática ou não em relação ao sexo que ambos sentiram excitação, desejo e não vi ainda em nenhum caso, um medidor de quem estava mais afim, quem deveria ter dito não, quem deveria ter feito a diferença, afinal sexo com ou sem amor, é responsabilidade de quem decidiu praticá-lo. Se há culpa, esta é devidamente parcelada em 50% para as duas partes. Afinal, é fácil criticarmos casais que saem por ai “acasalando”, e multiplicando as chances de crianças marginalizadas, é lugar comum querermos mudar o mundo, mas o que eu faço na prática? Alguns discursos são embasados em "preconceitos" “predefinidos”, em realidades que muitas vezes desconhecemos ou fingimos desconhecer, por isso lhe questiono, pois é fácil decorarmos citações de notáveis filósofos, o difícil mesmo é constatar o meu papel em relação a tudo isso. O que tenho feito para fazer do meu bairro, da cidade, país, do planeta um lugar onde os riscos, acertos, enganos fazem parte da vida? Vamos (re) pensar em nossas atitudes/ações, isso é mais importante que qualquer outra vertente. E que 2009 seja um ano repleto de realizações e novas descobertas pra você, ou melhor, pra nós. Desculpe todas essas indagações, minhas críticas, mas tudo isso nos faz crescer e melhorar esse exercício que praticamos diariamente, ESCREVER!

Beijos Poéticos.
;**

Baú de traças