segunda-feira, 4 de maio de 2009

Nabokov por um real

Qual não foi minha surpresa, ao cruzar com um sebo e encontrar livros a preço de caneta? Sim, porque tem gente que compra caneta - sem ser necessariamente uma BIC esferográfica - por um real. Pois bem: o que noutro momento não sairia por menos de vinte e cinco reais foi adquirido por mim a um preço tão irrisório que o furto de um exemplar assim tão barato talvez rendesse reportagem em algum programa policial (tipo "Sem Meias Palavras", bem conhecido dos pernambucanos e viciados em YouTube).

Lolita, o romance que adquiri, narra a história de um envolvimento normalmente censurável: Humbert Humbert, um professor de literatura francesa se apaixona sofregamente por uma garota de doze anos - Dolores Haze, Lolita para os íntimos -, que por sua vez se mostra bastante, digamos, madura. Na verdade, ele sempre teve atrações por garotas assim novas, e só com dificuldade mantinha relacionamentos com mulheres adultas. Casou, então, com a mãe da garota apenas para se aproximar melhor da ninfeta, que é como H. H. chama as meninas pubescentes. Talvez nem precisasse; algum tempo depois, a mãe morre atropelada, e o professor, tradutor e poeta fracassado toma a jovem e sai pelos Estados Unidos afora (a paquera começa em algum Estado a oeste).

Como é frágil e tortuoso esse giro! Apesar de sacana, Lolita se mostra, como a maior parte das garotas de sua idade, ridiculamente fútil. A partir daí, Humbert só consegue agradinhos (pra dizer o mínimo) de sua amada com uma série de chantagens, pequenas ou maiores; tem que ir a cinema tal e tal pra ver um filme meio fútil (suspeito que este dado não existe no romance, mas corrigirei assim que relê-lo), suportar sua indiferença ou birra quanto a paisagens naturais e cidades pequenas, além do natural ciúme de outros marmanjos de olho em sua singular beleza. E não é que ela, de alguma forma, acaba se perdendo do "padrasto"? Alguns anos depois, já desenhada pela endocrinologia e com um filho à espera, os dois se reencontram; apesar da aversão a mulheres com peitos e curvas (e boca, e olhos, e tez, e maçã, e... Tá, um belo dum xibiu cabeludo pra parar com a frescuragem), tentou uma reaproximação, sem sucesso; por fim, assassina o parceiro de Lolita de forma tragicômica, saboreando mesmo com um tempero dostoievskiano.
E, pra acabar com o papo furado, venho então com o motivo de minhas divagações. Pedofilia é um troço complicado de se cuidar, ainda mais com duas entidades bastante controversas: a Internet e Luiz Mott (sim, o decano do movimento gay no Brasil também defende a livre expressão do desejo por crianças). Não é à toa que o romance foi vetado na França, sendo publicado alguns anos depois de sua versão em inglês sair nos Estados Unidos. De resto, serve de bom material para estudos literários, psiquiátricos, psicanalíticos e o deleite ambíguo-lascivo-transgressor. Por outro lado, a coisa da pedofilia também remete ao tema da prostituição: pais que mandam as filhas ou meninas abandonadas por aí, que recebem mixaria pra um desconhecido qualquer passar a mão e se lambuzar com elas. Por um real.

3 comentários:

Lu Rosário disse...

Oh Lázaro, teve uma época em que fiquei doida para ler este livro.. depois eu fui me esquecendo, mas já voltou a vontade de novo. Eu cai na risada quando li:

"e curvas (e boca, e olhos, e tez, e maçã, e... Tá, um belo dum xibiu cabeludo pra parar com a frescuragem)"

kkkkkkkkkkkkkkkk

E a prostituição de menores de idade ta aí, na nossa cara. Infelizmente. E como vc mesmo diz, há um real.

Uma coisa: Que sebo maravilhoso é esse?

Beijos!

Ana disse...

"Lolita" foi o livro que catapultou Nabokov. E é lindo, denso, emocionante demais para quem o lê. Eu confesso que chorei lá pelas ducentésimas páginas. Mas por um real? Me conta onde é esse manancial de riqueza dada!
Esses proprietários dos sebos seguem à risca uma incrível frase de Oscar Wilde em "O retrato de Dorian Gray": "As pessoas sabem o preço das coisas, mas raramente sabem seu valor" (algo com essa essência).
Ótimo post!
=]

Dixie Linha Plana disse...

Primeiro de tudo: sou o Lázaro do ciberespaço, não o outro bunda-mole que é dono deste blog. De resto, garimpei essa preciosidade num sebo ao lado do IFCS/UFRJ, na Luís de Camões; tem outros títulos também baratos, mas pra conseguir outro assim tem que aguardar. Em geral, são títulos de literatura de entretenimento de origem anglófona e que entopem as prateleiras dos sebos. Ainda bem que o dono desse sebo lê Wilde! Vinte, trinta e tantos por um livro de pouco mais de trezentas páginas?! Dou uma porra que eu dou, só se não tiver outro jeito! De todo jeito, damas-da-noite, obrigado pelos elogios!

Baú de traças