terça-feira, 29 de setembro de 2009

Na diáspora

Li, un meses atrás lá no Rio quando fazia intercâmbio, uma coletânea de textos do sociólogo Stuart Hall. Organizada por Liv Solik, a obra se chama Da diáspora: identidades e mediações culturais. Na qualidade de coletânea, representa menos uma obra acabada do que uma série de conferências, capítulos e afins nos quais o sociólogo jamaicano expõe alguns de seus conceitos. Em alguns deles, acho (é possível que eu tenha lido algo na net e esteja confundindo as fontes), Hall menciona que sua própria trajetória de vida está intimamente relacionada a seu trabalho: saído de sua terra natal aos vinte e poucos, foi para a Inglaterra e só retornou quando já havia adquirido reconhecimento enquanto pesquisador e pensador.

Que seria, então (1), a diáspora? Uma relação no qual um indivíduo se sente pertencendo à sociedade na qual cresceu e da qual se afastou por um longo tempo. Essa relação, no entanto, apresenta duas características. Por um lado, tal indivíduo não se identifica com a sociedade em que se acha atualmente, ou pelo menos não é visto como, digamos, crescido nela, partilhando dos hábitos, costumes, dinâmicas, laços históricos, culturais e sociais comuns; por mais que Hall desejasse ser um autêntico inglês, por exemplo, ele não conseguiria, uma vez que sua vida pregressa na Jamaica lhe deixou marcas, seja no sotaque, na visão de mundo, na fisionomia (!!). Por outro lado, a assimilação de traços sócio-culturais da sociedade atual faz com que o diaspórico não se ache plenamente reconhecível em sua sociedade de origem, sendo possível uma espécie de estranhamento a alguns de seus aspectos; de novo, o exemplo de Hall, que se sentiu meio deslocado quando retornou a seu país natal, já prestigioso, para conferências e estudos acadêmicos.

Poderia continuar com tantos outros: judeus, negros, emigrados mil que pululam por esse globo azul, meu Deus! Mas vou encerrar com o mais insignificante deles: o meu. Pois bem: mais de sete anos sem ir a minha terra natal, Salvador, passei lá menos de sete dias. Houve o ENEARTE - Encontro Nacional dos Estudantes de Artes -, aproveitei a ocasião pra mandar trabalho, interagir com a galera... O principal, porém, foi matar a saudade: não podia perder a oportunidade, ainda que bastante curta, de reencontrar meus familiares, amigos, e comer acarajé a preço de custo na Baêêêêêa, minha porra! E meu sotaque, de híbrido entre baiano e potiguar, se baianizava cada vez mais; o povo no ônibus da delegação da UFRN achava até que eu tava me exibindo, até o momento que souberam de minha naturalidade. (O que não quer dizer nada, pois meu irmão mais novo também é baiano, perdeu todo o sotaque dele e acha superengraçado o jeito de falar de um baiano típico.) Aí cheguei lá, me diverti, matei a saudade, comi o acarajé, gastei um pouco de meu parco baianês... Para ter um pouco de tristeza ao voltar em casa, já em Natal: mainha comentava que meus parentes se divertiam comigo, arremedando o jeito de falar dos potiguares. Como assim? Logo eu, que nunca me potiguarizei e sempre me achei baiano, mesmo tendo assimilado o vocabulário local e alterado a entonação? E é realmente esquisito, pois enquanto meus conterrâneos me reconheciam como qualquer outra coisa que não um deles, sou reconhecido como um deles fora de lá - e até mesmo por outros baianos (não apenas os de Salvador) que encontrei no Rio.

Não adianta. Devo abandonar meu sonho de retornar às origens; estou híbrido demais para isso, e graças à diáspora. Baiano demais para ser potiguar, potiguar demais para ser baiano? Eu ainda me recuso a ser potiguar, o que não significa que eu não me interesse pelas coisas que aprendi e desfrutei aqui; costumo dizer que conheço Natal mais do que muito natalense, e penso em viajar um pouco pelo interior pra conhecer os lugares. Porém, o afastamento de minha cidade de origem pode não ter me proibido de me identificar com ela, mas me impediu que os laços sociais fossem mais estreitos. Vou cantarolar um pouco de "Inclassificáveis" e ver se me consolo...

(1) Efeito retórico. Li o livro apenas uma vez, e desconheço os detalhes.

Um comentário:

Lu Rosário disse...

Hauhauahauhauah...oh Lazaro, adorei o texto! e vc tirando a maior onda aqui...hehehe

Nem perguntei se comeu muito acarajé? Comeu quantos por dia? Matou a vontade?

Ai ai.. vc me faz rir.
Te adoro,menino!

Baú de traças