quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Infidelidade, velho afrodisíaco

Quem nunca levou ou aplicou um par de chifres, pense se é a hora de atirar a pedra para não se ver alvo de pedradas. Não deixa de ser mais uma pedrada o livro da psicóloga francesa Maryse Vaillant, que versa sobre a infidelidade masculina e defende que ela pode ser saudável para o casamento (1). Divorciada, Vaillant declarou que sua relação havia sido "fiel" e "estável". No entanto, o estudo que realizou com a população masculina na França indicou que 39% deles já havia pulado a cerca ao menos uma vez na vida. O motivo é que o macho apenas precisaria de espaço, sendo contudo monógamo na medida em que continua a amar a parceira fixa. Além do mais, a imposição da monogamia, para ela, é um fato cultural, não natural. Por outro lado, os homens que não tiveram casos extraconjugais teriam "fraqueza de caráter"; seus pais teriam sido física ou moralmente ausentes, o que os levaria a idealizar as funções de um homem e se prender a tal imagem. Uma das notícias que li (cf. abaixo, em inglês) elenca alguns políticos franceses que assumiram a força de seus affairs: Giscard d'Estaing, por exemplo, teve sua popularidade aumentada após um acidente de carro. A galera lá acreditava que a trombada com um caminhão de leite, ao amanhecer, teria sido precedida por uma visita à outra.

Notícias são curtas, e tenho que ler o livro assim que ele chegar por estas bandas do Atlântico. A tese de que traição e amor não se excluem é mais aceita do que a prioridade da linguagem oral sobre a escrita. Na Roma do Império, os divórcios eram freqüentes - sem mencionar as bacanais promovidas por Calígula. Uma pesquisa da história da vida privada pelo globo seria interessante para comparar o modus operandi da infidelidade, e encerro este parágrafo com um desejo longínquo de matar esta curiosidade.

Na filosofia, existem várias histórias atreladas ao assunto. Enquanto houve celibatários famosos: Spinoza, Leibniz, Descartes e Kant, que é o alvo predileto da desconfiança acerca de sua solteirice empedernida entre os que se interessam pela área. Hegel teve um filho bastardo, que reconheceria uns anos depois doe seu nascimento. Mas as sensações mesmo vieram no século XX: o duo Sartre-Beauvoir, que moravam em casas separadas, mas tiveram saco de aturar um relacionamento aberto pelo resto de suas vidas, apesar do ciúme excessivo de ambos; Heidegger e Arendt, professor e aluna, se atracaram antes e depois da fama, ainda que a filósofa recriminasse a seu mestre e amante o silêncio sobre sua analítica existencial e o Holocausto. Mas quem avançou ainda mais longe na defesa do amor livre - no qual a própria idéia de infidelidade está ausente - foi Bertrand Russell; casado quatro vezes, fundou uma escola na qual pretendia educar as crianças de acordo com essa filosofia de vida, mas que não durou muito. Foi boicotado em algumas universidades norte-americanas, conseguindo uma vaga na Universidade de Princeton; foi o intelectual de filosofia mais polêmico da história da instituição, até a chegada de Peter Singer. Sua defesa do amor livre se encontra sintetizada em frases como esta: "Rapazes e moças deveriam aprender a liberdade de seus companheiros do outro sexo; dever-se-ia fazer com que compreendessem que nada dá a uma criatura humana direito sobre outra, e que o ciúme e o sentimento de posse matam o amor" (2). Será que a gente chega lá, Russell? Porque Sartre discordaria frontalmente de seu argumento...

O que me faz pensar o seguinte: tá bom, vamos acatar sua sugestão, Mme. Vaillant. Nossas patroas, de agora em diante, não se preocuparão com os beijos que tascamos nas piriguetes durante o carnaval; evitarão censurar aquele jantar a dois caro com uma beldade qualquer. Nós, homens, vamos participar de ménages-à-troi com o único compromisso de vestir a camisinha. E deixar nossa marca, expandir nosso leque de parceiras, almiscarados e apoiados por uma nova ética conjugal... Conquerire feminas necese!

Mas aí, Mme. Vaillant, lanço duas perguntas. Em que isso pode ser saudável? Até que ponto pode ser saudável? Estou bastante curioso a respeito dos dados de sua pesquisa, desde as estatísticas até o questionário, mesmo não sendo nenhum aficionado por psicologia. Porque vejamos bem: poderíamos estender essa garantia às mulheres? Elas podem sair por aí beijando e trepando com quem bem entenderem, sem um pingo de remorso e moralismo como nós? Mas ainda não cheguei ao essencial: mesmo que a infidelidade virasse a regra e os casais fiéis se tornassem motivo de chacota em algum futuro, que fazer daqueles ciumentos, patológicos ou não? Eles aceitariam apenas uma parte do trato, não se conformando nem mesmo em sonhar que a parceira guarda a camisa de um caminhoneiro cheiroso que encontrasse na estrada. Faça o que digo, mas não faça o que faço: vou comer Valesca Popozuda no carnaval carioca, mas ai de você se olhar para Rodrigo Santoro!

A segunda pergunta concerne à distinção natural/cultural. A distinção data do século XIX, e deu uma trabalheira enorme para os filósofos e cientistas; tanto Comte quanto Dilthey aceitam que há diferenças entre natureza e cultura, embora divirjam nos argumentos. Dilthey argumentou que haveria duas categorias de ciência, cada qual dando conta dos problemas específicos dessas dimensões: as ciências da natureza e as ciências do espírito. A psicologia, coitada, tá numa sinuca, pois não se decide entre uma e outra. Há correntes mais simpáticas à primeira das categorias, como o behaviorismo - ao passo que a Gestalt e a humanista-existencial estão mais pro lado da segunda. Minha dúvida, então, é a seguinte: teríamos tanta razão em deixar a infidelidade pra lá? Cada qual com seu cada qual, mas creio que infidelidade é mais problemática em conseqüência de estar atrelada ao ciúme do que ser mera parte inerente do comportamento masculino. Resolver o problema da infidelidade deixando o ciúme intacto é fazer o trabalho pela metade.

Luis Fernando Verissimo, em seu livro As mentiras que os homens contam, disse dirigindo-se às leitoras: "Não mentimos para vocês, mentimos por vocês. Os verdadeiros cavalheiros eram os que enganavam as mulheres. Os calhordas diziam, abjetamente, a verdade". Infidelidade está ligada, pelo menos por agora, à mentira. Esta, por sua vez, estava ligada ao ciúme no magnum opus de Proust, Em busca do tempo perdido. Lendo a obra proustiana, Deleuze afirmou que a verdade do amor é o ciúme - ou seja, a mentira, a desconfiança perante a pessoa amada. Gostaria bastante que tanto a infidelidade como o ciúme acabassem um dia, mas parece que é pedir demais do pessoal e, possivelmente, de mim mesmo. Além do mais, tem gente que adora seguir nessa condição, achando a vida terrivelmente monótona sem essas picuinhas. É claro que é a função de pessoas como Vaillant pensar em coisas pra segurar a barra, quando a situação escapole completamente para fora do controle de seus pacientes. Só me resta aguardar e acompanhar a repercussão do livro dela e aceitar o fato de que a infidelidade é o mais velho dos afrodisíacos que conhecemos. E o mais eficaz - perto dele, catuaba, mamão, banana, amendoim, camarão, ostra, o óleo de boto lá dos paraenses são café pequeno...


(1) Duas notícias sobre a autora: http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2009/12/582788-psicologa+francesa+defende+infidelidade+masculina+para+ajudar+o+casamento.html (da Globo) e http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/france/6908022/Husbands-affairs-are-good-for-marriage-claims-French-psychologist.html (Telegraph, em inglês)

(2) O trecho é do texto "Aquilo em que creio", no livro "Por que não sou cristão". Quando lembrar da editora, boto a referência completa. A L&PM publicou também "Por que não sou cristão" e "No que acredito" (ou seja, o mesmo que "Aquilo em que creio", só que numa tradução diferente e num livro à parte).

Um comentário:

Lu Rosário disse...

Pensar em infidelidade é pensar não somente na questão do ciúme porque esta por si só já engloba uma série de outras questões, tais como a do respeito ao outro,às leis do amor e tantas outras que foram adquiridas em nossa sociedade. Certo que a infidelidade já é uma marca do sexo masculino atualmente, bem como a da mulher que o perdoa por isso.. mas isso é algo que foi contruído historicamente e, principalmente, na sociedade ocidental em que vive-se uma ciência sexual, tal como nos diz Foucault em História da sexualidade. No entanto isso "dá pano pra manga"...beijos.

Baú de traças