segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

De maturitate vitae

Era só pra botar os pingos nos is. Já sabia a resposta, mas precisava ouvir da boca dela. Nada demais: sim ou não. Até aí, tudo bem. Mas ela inventou de fazer uma retrospectiva, comentando que não era tão madura quanto é hoje, mas que, na época em que namorávamos, ela era mais madura do que eu... No momento tomei um susto, mas fiquei na minha. Pra quê? Essa PÉROLA haveria de perturbar meu juízo até agora! E eu doido pra dar um puxão de orelha, saber dela qual o critério pra soltar essa porra de papo de maturidade; mas mainha me convenceu a deixar quieto, já que ela tem uma penca de problema familiar pra resolver (o que é verdade). Não satisfeito em ficar na minha, decidi postar a história, compartilhar com vocês e continuar o longo processo de desabafamento, que certamente não acabará (ao longo da postagem, vocês entenderão o porquê).

Pois bem: após ela ter soltado esse impropério, comento o caso com uma amiga. Ela me diz que toda mulher tem esse papo (mulheres são mais maduras que homens), especialmente quando o casal tá num bate-boca daqueles; além disso, mencionou que os cientistas também teriam dito isso. Não contente, perguntei no Twitter e responderam no Facebook (1) que sim, na maioria das vezes (uma delas) e sempre (outra). Atirei no que vi, acertei no que não vi: cabava de descobrir um clichê dos interlúdios entre homens e mulheres. Latejava no juízo O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir - ela, mulher, que lutou tanto pra acabar com esses conceitos empacotados! Ou seja, ainda tinha muito o que procurar. Aí uma amiga minha me deu uma explicação ainda biologizante, mas mais plausível: as mulheres amadureceriam mais rápido que os homens, em parte por questões de sobrevivência. Como há muita mulher pra pouco homem, então elas aprenderiam a desenvolver uma série de habilidades pra se sobressaírem melhor umas em relação às demais - e assim realizar o sonho do homem próprio; no entanto, os sexos se equiparariam em maturidade (tanto sexual quanto comportamental) por volta dos vinte e cinco anos.

Adoro biologia, mas esse papo aí das mulheres com quem conversei deixa uma coisa de fora: o ser humano, independente de gênero e orientação sexual, precisa de outros seres humanos pra viver - o que inclui, naturalmente, a árdua tarefa de maturação (vou acabar me achando um monte de jaca podre até o fim deste texto). Além disso, nem todo mundo amadurece do mesmo jeito (JURA?!). Continuo achando que essa história de maturidade depende essencialmente de cada um; prefiro concordar com dona Beauvoir lá de cima. Cada qual existe no mundo de forma singular, e as escolhas que realiza é que definem tal singularidade.

No fim das contas, ainda concedi a ela (ela só vai saber quem é ela quando ler) que... Mas, antes da concessão, no melhor estilo cético (2), e antecipando os argumentos dela, eu digo o seguinte:

a) em geral, idade é um mostrador razoável da maturidade de um indivíduo; quanto mais velho, mais experiente, experimentado (epa!), etc. etc. Ocorre que a diferença entre mim e ela é de pífios trinta dias de nascimento - o que, pela regra geral, não a autoriza a dizer aquela merda, não por ser mais nova do que eu, mas porque a diferença de idade entre a gente é ridiculamente pequena.

b) concedo que ela seja, em alguns aspectos da vida, mais madura do que eu - em especial no que toca à família e ao trabalho. Ela, de fato, é mais centrada, mais pé-no-chão; não tenho vergonha em assumir que, freqüentemente, quero dar um passo maior que a perna. Mas é exatamente essa vontade de andar a passos largos que me coloca em diversas situações de vida. E com certeza eu tive (e ainda tenho) algo a aprender com elas, pra escolher melhor os próximos desafios que pretendo correr e aumentando minha visão de mundo - e não hesito em dizer que, nesse quesito (que envolve aceitação de fatos desde a afetividade pública entre gays e lésbicas até as mais diversas doideiras que povoam o juízo de cada um), estou bem melhor do que ela.

c) a última das objeções é bastante simples. Se ela é realmente mais madura do que eu (incluindo os setores nos quais afirmo que tô melhor), pra que essa droga de conversa? Só em algumas poucas situações é permissível afirmar a alguém que se é mais maduro, mas em geral é quando há uma diferença substancial entre os envolvidos, o que não é o caso. E, mesmo que fosse, não seria lá grande coisa da parte dela, já que sou bastante orgulhoso e relutaria em tomar isso como verdade.

Bom, é isso. Vou seguir o conselho de Sêneca (3) e parar de me ocupar com coisa besta. Tenho mais o que viver, viu...

(1) Integração de redes sociais.

(2) Contrapor um argumento a outro argumento igualmente forte e demonstrar que não há maiores razões em acreditar em um deles, em detrimento do outro. E, a seguir, a tranqüilidade necessária à busca da verdade - epoché. Para mais detalhes, procurem textos sobre Sexto Empírico; uma boa pedida é começar por Osvaldo Porchat.

(3) De brevitate vitae.

Um comentário:

Lu Rosário disse...

Não imaginei que esse assunto fosse dar tanto pano pra manga, mas se avexe não.. sossegue e relaxe. Ela foi infeliz no que disse, realmente não cabia tão afirmação..e você foi infeliz em se sentir atingido por isso. Mas quem diz o que quer, ler o que não quer.. espero que ela ainda passe por aqui..

..beijos.

Baú de traças