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domingo, 14 de dezembro de 2014

Sobre TERFs, transfobia e imprecisões conceituais: considerações sobre um texto de Carla Rodrigues

(Publicado também na Carta Potiguar)

No site do Geledés Instituto Mulher Negra (1), foi republicado um texto de Carla Rodrigues, professora de filosofia na UFRJ, sobre a questão de gênero (2). O título, extremamente provocador, anuncia: o (cis)gênero não existe. Como ela mesma declara, a ideia foi reformular a ideia de Judith Butler segundo a qual não existe gênero, a fim discutir a transfobia existente nos setores radicais do feminismo e o fundamento biológico desses setores. Ora, é a partir desse fundamento que as radfems não só usam vocabulários como “fêmea” (para indicar um pertencimento de mulheres cis) e “macho” (excluindo o apoio de homens à causa feminista – e a coisa tá longe de atingir apenas aqueles claramente machistas), mas deslegitimam o acolhimento de mulheres trans* no feminismo. A coisa é tão tensa que duas estudantes da UNICAMP (Amara Moira e Bia Bagagli, esta moderadora da página Transfeminismo no FB), onde foram pichados banheiros com declarações transfóbicas, preferem se alinhar à agenda LGBT (mesmo com as prioridades voltadas para a causa gay) a participar de ambientes feministas, tendo em vista que ali sua pertença ao feminino não é deslegitimada (3).
Mas, depois do preâmbulo acima, deixo que vocês leiam e tirem suas próprias conclusões. Meu foco é outro. Na página do Geledés (4), acusaram Carla Rodrigues de ser desonesta, contraditória e imprecisa. Em um dos comentários, havia a seguinte declaração: “Com tanta violência contra mulheres, claro que temos que nos defender. (foi a forma que as estudantes encontraram de protestar). Afinal, estupradores podem lançar mão desse disfarce para entrar em banheiros femininos, sem causar estranheza. O que o movimento LGBT deve fazer é exigir um banheiro próprio e não colocarem as mulheres em maior risco do que já correm”. Quer dizer: LGBTs só se preocupam com banheiros mistos, né, gente? Na verdade, essas pessoas não se deram ao trabalho de perguntar à autora de onde vinham os pressupostos de seu texto. A única crítica pertinente que vi foi da própria Amara Moira, aludindo ao problema da cisgeneridade a partir designação no nascimento. Não se trata de naturalizar o privilégio cis, mas de questionar o quanto designar alguém como pertencente ao sexo masculino e feminino apresenta privilégios na sociedade – e vedando, por tabela, a participação plena de pessoas que não se enquadram na cisgeneridade. Segue o comentário na íntegra:

“Ai, esse texto é super complicado. Bate nas TERFs, na transfobia, mas diz que o “cis” da questão não existe… o curioso é que o “trans” existe, e ela fala com toda a tranquilidade do mundo das pessoas transgênero o tempo todo. Não existir cis quer dizer que não existe trans? Pq se não existe trans, olha, tou vendo um monte de assombração que me discrimina por uma condição que sequer existe. E discordo frontalmente da maneira como a autora manipula o conceito de “cisgênero”: não se trata de igualar sexo biológico e gênero, o conceito busca, isso sim, apontar para o fato de que qdo nascemos recebemos uma designação, essa designação por sua vez contém um desígnio, e a forma como a pessoa vem a se compreender está plenamente contemplada nesse desígnio. Ou seja, trata-se de ter recebido uma designação arbitrária ao nascer e, no decurso da vida, se identificar da maneira como aquela designação previa, oq proporciona à pessoa um sem-número de privilégios (em relação àquela que não se conformou com esse desígnio).”

À primeira vista, Carla Rodrigues não contempla diretamente esse problema. Ainda assim, antes de acusarmos o texto de Carla Rodrigues de incoerente, contraditório ou desonesto (e assim encerrar este texto), consideremos as seguintes questões como plano de fundo:

1) é porque O gênero não existe que podem existir GÊNEROS. A impossibilidade do gênero único permite, então, o nascimento de múltiplos gêneros (principalmente se pensarmos a raiz de “gênero” tem a ver com nascimento). Gêneros nascem em diversos contextos sociais, históricos, geográficos etc. distintos – de modo que não dá pra nivelar NINGUÉM por baixo. Kathoeys, hijras e pessoas de dois espíritos não são, por exemplo, formas equivalentes de expressão (trans)genérica;
2) tem uma ideia de Derrida, num texto chamado “A lei do gênero”, analisando um texto de Maurice Blanchot, que é extremamente oportuna pra este contexto: “Todo texto participa de um ou vários gêneros”. Essa participação só é possível por causa do ponto anterior – a inexistência do gênero único (ou, como Carla Rodrigues afirmou no texto dela, do cisgênero). Essa participação pressupõe e implica uma contaminação de gêneros, desde sempre – e, da mesma forma que os textos, os corpos também participam de um ou vários gêneros. A não binariedade de algumas pessoas é, nesses termos, a ampliação dessa participação em vários gêneros;
3) o fato de não haver gênero único NÃO QUER DIZER QUE NÃO HAJA VIOLÊNCIA DE GÊNERO! Quer dizer que devemos redimensionar o tratamento da violência de gênero deve evitar cair na naturalização do corpo propagado por radfems (especialmente as TERF, isto é, as que excluem mulheres trans* da agenda feminista), de um lado, e mascus e sanctos, do outro. Devemos tomar cuidado com distinções do tipo amigo-inimigo – principalmente se pensarmos no autoritarismo em que essa distinção incorre. É nessa distinção que se baseiam as pichações transfóbicas na UNICAMP (e o manifesto de Valerie Solanas, by the way) (5);
4) o comentário de Amara, como explicitei acima, questiona a associação entre cisgeneridade e a distinção sexo/gênero, argumentando que o problema se trata da designação arbitrária atribuída às pessoas no nascimento. A cisgeneridade, então, se constitui em privilégio por causa das vantagens que essa designação inclui. Mas aí vem outra questão: a transgeneridade também não seria arbitrária? Ora, a arbitrariedade do signo, se pensarmos com Saussure, parte de uma não correlação natural entre significante e significado. Não está explícito no texto se existe espaço para a questão do nome (isto é, da designação), mas o questionamento que ele propõe também dá algumas pistas para o questionamento da designação cisgenérica, na medida em que a própria Carla Rodrigues assevera que o gênero “é uma construção social a partir da qual não se pode evocar uma ideia de normalidade ou adequação”. Da mesma forma que não existe gênero único, também não há nome único. Ou seja, o tratamento do problema do nome, se a gente levar às últimas consequências, não só implica o desmantelamento do privilégio da cisgeneridade (6), mas também contribui para aprofundar a questão da transgeneridade (principalmente para pessoas trans* não binárias), na medida que o problema do nome também assume a forma do problema de reconhecimento na sociedade.

P.S.: relendo o texto de Carla Rodrigues, percebo que estou enganado quanto ao não questionamento da cisgeneridade: “Depois de tantos anos lutando contra a distinção binária masculino/feminino, construída como hierárquica e dicotômica, não faz sentido erguer um novo par opositivo – cisgênero/transgênero – para sustentar exclusões, como se a uma pessoa fosse perfeitamente possível estar ‘de acordo’ com seu sexo e com as expectativas das convenções sociais”. Essa recusa da oposição cisgênero/transgênero é um ponto de partida para questionar o privilégio da cisgeneridade  – privilégio arbitrário, simultaneamente convencionado e abusivo. Acredito, assim, que Amara e tantas outras pessoas marginalizadas pela cisgeneridadade possam ter alguma esperança a partir do texto.

(1) http://www.geledes.org.br/o-cisgenero-nao-existe/
(2) http://www.blogdoims.com.br/ims/o-cisgenero-nao-existe. Aqui vai o blog de Carla Rodrigues: http://carlarodrigues.uol.com.br/
(3) Super vale a pena ler a entrevista na íntegra: http://www.ladobi.com/2014/12/apos-pixacoes-em-banheiros-alunas-transgenero-da-unicamp-dizem-que-transfobia-e-feminismo-andam-juntos/ É, ao lado da entrevista com Sofia Favero (http://www.nlucon.com/2014/08/travesti-reflexiva-sofia-favero-transfobia.html), a sergipana moderadora da Travesti Reflexiva no FB, uma das melhores entrevistas que li em 2014.
(4) https://www.facebook.com/geledes/posts/10152420672251816″
(5) Existe uma tradução para o português aqui: http://scummanifesto.wordpress.com/ Engraçado que Solanas não pareceu ver a proximidade de seus argumentos com os movimentos totalitários engendrados por homens mundo afora. A distinção amigo-inimigo presente no texto de Solanas – horribile dictu – é basicamente a mesma elaborada por Carl Schmitt em “O conceito do político”. A diferença entre Solanas e Schmitt é só a dicotomia: o jurista alemão associava a distinção amigo-inimigo à distinção público-privado, de modo que inimigo é, por definição, inimigo público, do Estado, devendo assim ser destruído; Solanas preferiu a distinção fêmea-macho, situando o macho como inimigo das mulheres em todos e quaisquer espaços.
(6) “O que é cisgênero?” – texto esclarecedor (para mim também, inclusive) sobre os efeitos do privilégio da cisgeneridade pelo mundo afora http://transfeminismo.com/2014/03/23/o-que-e-cisgenero/

domingo, 5 de agosto de 2012

Os ventres do homem e da mulher


Esta semana, na UFRN, conversando com uma colega do mestrado, lamentando por não ter podido assistir a sua apresentação de dança do ventre (até porque ela foi chamada de última hora), tirando uma onda porque, supostamente, eu observaria os detalhes da apresentação (ela estava parada havia um ano, e eu fiz uns dois meses, aí parei por motivos que escaparam a meu controle), e eu comento que havia feito dança do ventre... Não, ela respondeu, homens não fazem dança do ventre, homens fazem dança árabe.

Breve silêncio.

Tão breve que não deu nem um segundo e retruquei: como é a história? O que é dança árabe? E por que homens não dançam dança do ventre?

O primeiro argumento dela: homens não possuem ventre, só quem tem ventre são as mulheres. Pedi que definisse "ventre": porque, até onde eu saiba, "ventre" é o mesmo que "abdômen", "barriga", "bucho" - enfim, esse espaço ocupado por órgãos variados. Ela não sabia o que era "ventre". Oi? Mas ainda arrisquei, pra ver se ela soltava algo mais consistente: arrisquei a hipótese de que "ventre" = "útero". (A princípio ela não endossou, mas viria a adotar a metonímia mais tarde. Depois disso, cheguei à conclusão de que dança do ventre é mesmo uma coisa histérica (1).). E ela dizendo que o homem não fazia os mesmos movimentos que a mulher, e depois dizendo que homens quem dançavam dança do ventre não são bem vistos e são um fenômeno marginal... Ela ainda soltou um belíssimo argumento de autoridade, segundo o qual a professora com quem fez aula tem dezenove anos de experiência. Fora de brincadeira, eu entendi aonde ela queria chegar, mas simplesmente não soltou nenhum argumento coerente. O ônus da prova cabia a ela, mas ela delegou a mim a tarefa de pesquisar sobre o assunto. O que fiz. Hora de matar a cobra e mostrar o pau.

Segundo a hipótese mais aceita, a dança do ventre teria iniciado no Egito como uma reverência às fertilidades agrícola e reprodutiva. Alguns séculos mais tarde no entanto, apareceram os primeiros dançarinos, tão valorizados quanto as dançarinas - a ponto mesmo de serem preferidos em ambientes misóginos e conservadores. Só a partir do século XIII que tanto homens quanto mulheres passaram a ser malvistos se dançassem (2). O fato, porém, é que existem mesmo danças praticadas tipicamente por homens, como o tahtib (que também pode ser dançado por mulheres). Houve mesmo época em que a dança do ventre esteve ligada à prostituição e/ou  à atividade cortesã. É bom deixar claro um detalhe: a dança do ventre, tal como a conhecemos hoje em dia, possui origem bem recente apesar de suas antecedências milenares, datando da primeira metade do século XX, com o raqs sharqi; a expressão, no fim das contas, é um guarda-chuva pra um conjunto de danças similares nos movimentos e nos propósitos (de fertilidade, feminilidade etc.), e foi criada no século XIX a partir da onda orientalista que passou pela Europa de então.

Amir Thaleb não liga pra essas distinções

Acompanhando essa hipótese, existe entre várias praticantes um apego ferrenho a essa tradição "feminilista". Só mulé dança dança do ventre, só mulé ensina dança do ventre, só mulé saca de dança do ventre - e ai do homem que disser que faz, pois será tachado de gay e despertará a ira dos maridos ciumentos, que só liberam as esposas pra fazerem aula por causa desse preconceito largamente difundido! Olha, a falta à tradição mata; quando não mata, mingua aqueles que não a respeitam. Entretanto, uma coisa bastante simples é a seguinte: há outras mulheres que simplesmente não vêem nada de mal em que homens dancem; eles são igualmente admirados e, por vezes, invejados. Há alguns que põem movimentos feminis na coreografia, ao passo que outros emprestam uma dimensão masculina à dança (3). E, como já disse, há mulheres que também praticam danças masculinas.

Tudo isso está bem longe de ser queer, naturalmente; mas é digno de nota que a heterotopia marcante da pós-modernidade, agrupando em um mesmo topos práticas tidas por distintas e mesmo incompatíveis, de alguma forma perturba os pilares dessa tradição (ou pelo menos o modo como enxergamos tais pilares). Não pretendo de modo algum refutar a hipótese de que a dança do ventre surgiu como um culto à fertilidade. O que está em questão é simplesmente reconhecer que sim, existem homens que dançam dança do ventre, independente de dançarem como mulheres ou de serem gays ou whatever. Ponto. A própria garota reconheceu, na fala contraditória dela, que dançarinos do ventre são um fenômeno marginal; mas só porque é um fenômeno marginal não quer dizer que é um fenômeno inexistente. Homens passam roupa, mulheres dirigem caminhão. Homens e mulheres dançam dança do ventre. E dança do ventre não é mais uma coisa histérica.


P.S. (acrescentado em 11 de julho deste ano): a garota conversou comigo a respeito, reforçando uma última vez que a questão dela era em torno da nomenclatura (embora não tenha exatamente gostado do modo como a gente conversou - ou melhor, como me dirigi a ela). Reafirmou que a questão da dança do ventre não é que homens sejam proibidos de dançar. Ou pior, que ela simplesmente ache um absurdo que homens pratiquem essa modalidade e os recrimine por isso - quando escrevi acima sobre homens serem tachados de gays, isso se deve ao preconceito largamente difundido sobre a dança entre aqueles que não a conhecem ou praticam, muito embora a opinião dela contribua para esse preconceito de modo mais ou menos direto. Se o texto deu a entender que a declaração dela foi homofóbica, trato de esclarecer que não foi o caso.

Com efeito, segundo essa linha de pensamento, a expressão só se aplica às mulheres, pois "ventre" lá seria a representação do útero. Ocorre, porém, que "raqs sharqi" significa simplesmente "dança oriental" em árabe. Ou seja, este texto também toma a nomenclatura por ponto de partida, pois ela também é importante; o modo como a encaramos define bastante o modo como a praticamos. Nomear e fazer não se separam de forma estanque, especialmente quando se trata de um processo coletivo. Como afirmou Protágoras de Abdera, o homem é a medida de todas as coisas.


(1) Como todos sabemos, histeria vem do grego hysteron (útero). Dizia Freud que essa doença era típica das mulheres (apesar de os sintomas também existirem entre os homens). Não estou surpreso por ver um pouco desse freudismo em certas praticantes da dança do ventre (como minha colega).

(2) Dados livremente apropriados daqui e daqui.

(3) Bom lembrar que, quando se fala de masculino ou feminino aqui, estou me referindo ostensivamente a todo um sistema taxionômico de identificação de gêneros presente no Ocidente. Estou falando da recepção da dança do ventre aqui no Brasil, mais especificamente; ainda não faço idéia exata de como esses preconceitos funcionam em outros lugares. Mas basta mencionar o fato de que o raqs sharqi já mencionado foi fortemente censurado no Egito durante parte do século XX; mesmo as mulheres não poderiam estar com o corpo bastante descoberto. Seguramente, homens que dançam dança do ventre também não são bem vistos no mundo árabe.

Baú de traças