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sexta-feira, 3 de julho de 2009

Le roi est mort, vive le roi!

Já vai tarde. O povo é tão jururu, fica se importando com a vida alheia, quanto mais com a de um cantor que se via com o cu na mão devido a acusações de pedofilia; pra não mencionar o golpe que deu em Paul McCartney, tomando conta dos direitos autorais dos Beatles. Papai, que batia nele quando moleque, agora cresce o olho pros milhões que não recebeu de herança ("agora" é modo de dizer, porque os dois viviam num pega-pra-capar brabo com os direitos dos Beatles já citados); a enfermeira quer a guarda dos filhos, que estão sob custódia de mamãe. Nada mais justo pra uma criatura que pariu rebentos cuja paternidade foi posta em xeque: capaz que o dono do sêmen seja um cirurgião, ex-chefe dela, bem apessoado por sinal.

"Pô, Linha Plana, você leitor deve estar pensando: dá um desconto, cara! Você mal e mal se firmou como pseudônimo ou heterônimo de sabe-se lá quem, não mostra seus dotes e fica escrevendo qualquer merdinha, sem saber mesmo se alguém vai se dar o trabalho de ler isto". Alto lá! Alto lá! Antes merdinha do que mal-amado! Mas, pensando bem, eu tô chiando demais, não é verdade? E o troço acaba tomando uma dimensão hipócrita, pois foi com o assim chamado rei do pop que aprendi a andar na lua. MJ era ótimo bailarino, tava ensaiando com força pra turnê que ficou por iniciar. Quem é que não imita a coreografia do "Thriller", aquela porrada de zumbis enchendo os olhos dos espectadores? E o "Smooth Criminal", com umas paradas de breakdancing super bem boladas e aquela cena que o indivíduo se pergunta: comé que os bicho descem mais de quarenta graus inclinando pra frente sem cair? (Eu me pergunto até este momento, tá?) Pra deixar isso de lado, só o "Black or White" que o popstar vira uma onça de sai quebrando tudo...

Mas nem tudo é momento de carpir, minha gente. Os camelôs estão faturando com os vídeos dos ensaios; a galera em Hollywood, com a Calçada da Fama, com filas comparáveis apenas ao antigo INAMPS (alguém ainda se lembra do INAMPS?). Tem gente que chora, que dança, que tira sarro com essa cambada de trouxa que gasta o dinheiro com a morte dele... Vou entrar num conservatório pra afinar meu gogó, e tomar umas aulas de street dance pra caprichar nas coreografias e no MJ kick. Mas prometo às (improváveis) fãs que meu negócio será apenas com mulheres.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Saia com foto de calcinha

Tô sem fazer nada em casa (1) e, de repente, paro pra assistir o Tudo é possível, apresentado por Eliana na Record. Aí eu vejo cinco boazudas desfilando numa rua, com saias estampadas com calcinhas atrás. Isso mesmo: saia com foto de calcinha. Acompanhando as damas (2), a pergunta soltada pela loura: essa moda pega?

A coisa começou uns tempos atrás, no Japão. No entanto, em vez de impressão na roupa (como no caso das modelos), a estampa é pintada. A mão nipônica é, de fato, meticulosa - reproduz fielmente a bunda da mulher; mas as fotos mostradas só tinham saias com estopa (3). Já as brazucas, ai titia!, ai se a moda pega! Claro que algumas vão optar por estampas de estopa também, mas algumas... Ê torança! (4) E, como não podia deixar de ser, houve consulta popular. Já se esperava a divergência de opiniões entre homens e mulheres, embora a maioria dos marmanjos tenham gostado da idéia. Naturalmente, aquela nuance de machismo: saia com foto só com a mulher dos outros.

Mas o que me chamou mais a atenção foi a proveniênica da vestimenta. Até onde sei, a cultura japonesa tradicional é sóbria até o osso - e isso apesar dos hentais. Cê veja como é a tal da pós-modernidade - muito semelhante ao efeito borboleta, ninguém sabe quais os efeitos dos fenômenos pelo mundo afora. Daqui a pouco vão fazer estampa pra destacar o capô...

P.S.: desculpem a falta de imagens, o Google não colabora...
P.S.S. (acrescentado em 23/11/2008): confiram o primeiro (e, até agora, único) comentário a esta postagem, é elucidativo para o efeito borboleta, isto é, efeito saia-com-foto.

(1) Sou VASP.
(2) Seriam damas de lotação? Ui!
(3) Fazendo a verificação idiomática no Google (só pra checar se outros lugares do Brasil usam estopa como no potiguês - português do RN -, isto é, uma calcinha enorme), não pude deixar de incluir esta piada:

"A garota veio do interior para a cidade grande para a sua primeira consulta ao ginecologista.
Quando o médico decidiu examiná-la e pediu que levantasse a saia, não conteve o riso.
- Seu dotôr - disse ela, envergonhada. - O senhor tá fazeno pôco de mim, só por causa di quê eu uso calcinha feita de estopa?
- Desculpe, senhorita! Só achei graça os dizeres: 'Ração para Pinto'."

(4) Sabe aquelas calcinhas diminutas, estilo Ana Maria ou Kátia Flávia (cf. Fausto Fawcett)?

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Desgraça e emancipação na sola do pé

Já li, vi e ouvi falar de um bocado de propagandas, doenças e curiosidades várias sobre calçados. Gente escalando penhascos, tomando sol na praia, as colunas tortas de madames em salto 20 e feridas por alergia a tinta de chinelo: não é disso que quero tratar. Se existe um item de vestuário que enche meus olhos, é o calçado – meia, tênis, sandália, papete, alpercata; de vez em quando, passo pela vitrine da Meggashop e conferir o mostruário, coçando a mão para não comprar: também não é isto que me interessa. Meu ponto de partida é outro: uma entrevista no Programa do Jô com um imigrante vietnamita, dono da Goóc – uma empresa de calçados.

Comecemos, no entanto, por outra parte: Universidade Stanford. Um aluno lá, ex-atleta de corridas de fundo, pensou em criar tênis esportivos com mão-de-obra barata do Japão. Isso foi mais de quarenta anos atrás. Hoje, além de tênis, uniformes e contratos com jogadores de futebol, a Nike fatura uma nota preta com quinquilharias, desde relógios até canecas. A sede é nos EUA, mas é a subsidiária em Taiwan que contrata empresas pela Ásia para o fabrico dos produtos – e, como já li e ouvi falar várias vezes (e não só com a Nike), mão-de-obra barata é eufemismo para exploração subumana do trabalho, especialmente o infantil. Quer dizer, nenhuma novidade a acrescentar ao que a história nos mostra: o homem pisando noutros homens pra tentar subir na vida – Phil Knight, até agora, só acumula processos. Pelo menos é o que parece.

Ali, perto do Taiwan, grassava uma guerra horrenda no Vietnã. Desmoralizou os EUA, que entretanto deram um banho de napalm e arrasou o território vietnamita, dividido em facções antagônicas ainda antes do conflito e – após a derrota ianque e unificado – em batalha com a vizinhança, notadamente o Camboja. Num navio de carga brasileiro, Thai Nghia embarca para o Brasil, fugindo da hecatombe de sua terra natal e sem dar um “oi” em português. Após anos de trabalho e aprendizado – que culminou na elaboração dum dicionário -, o imigrante começou a fazer chinelo com pneu velho, ocupação surgida no Vietnã da guerra contra os Estados Unidos. Com algum capital de giro, fundou primeiro a Yepp, depois a Goóc, que ainda usa pneus velhos como matéria-prima das sandálias, e vende outros acessórios mais; ao lado da durabilidade caminha a aceitação, pois a empresa já exporta para outros países – e isso em poucos anos de existência. E, por enquanto, nada de moleque sugado pela lógica humana de pisasr para subir, infinitamente pior que a lógica de mercado capitalista ou a lógica burocrática socialista. Rendeu até entrevista com o gordo.

É num espírito de ceticismo que teço aproximações entre elas. Bastante pós-modernas: enquanto a Nike aposta na herança pós-industrial da economia norte-americana, a Goóc mescla consciência ecológica com maneirismos parisienses. E, em contraste com imigrantes asiáticos que vendem tênis contrabandeados – falsos, presumivelmente – por bairros comerciais de Natal, ainda não soube de lotes de sandálias de pneu reciclado em consignação numa loja de Pedro Juan Caballero. E, se nem esse ceticismo me for útil, e eu passar fome no Vietnã, quem sabe eu não faça um chinelo com papelão, para conservar as tênues marcas da desgraça e emancipação na sola do pé, e tentar subir na vida sem pisar em ninguém?

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Baudrillard e os Mamonas Assassinas

Puxa, quinta passada bateu aquela nostalgia. Antecipada, claro: desde terça ou quarta que eu já sabia do programa - embora só voltasse a lembrar quando cheguei em casa, após o jogo de dominó. Na Globo, aquele programa - especial? - recontando a trajetória meteórica dos Mamonas Assassinas. Num conjunto habitacional de Guarulhos, quatro jovens animavam o público local com um repertório melancólico - o que mudaria com o ingresso de Dinho e um show no ginásio da cidade (Thomeozão) negado; o diretor trancou o portão dando um esporro no grupo - como iriam tocar ali, se o nome da banda - Utopia - não ajudava?

Algum tempo depois, tocaram num comício eleitoresco. A galera gostou, fizeram um demo, procuraram uma gravadora, foram recusados; acabaram por voar a Los Angeles e gravar o bendito disco. Voltando ao Brasil, o povo começava a conferir seu trabalho. Pronto: em alguns meses, um grupo de pastichadores palhaços - não estou sendo hipócrita - pintava e bordava nos palcos daqui. Português, nordestino, corno, gay: os Mamonas Assassinas entoavam o coro e botavam a galera pra cantar, tiravam sarro com Faustão, Xuxa e Gugu e faturavam o deles. Numa rotina girando em torno de trinta apresentações por mês, o vocalista conseguiu ir da picardia à fúria; questionado sobre se haveria algo de diferente numa delas, Dinho soltou: "eu espero que seja super diferente, a gente lá em cima do palco, tocando, o público lá embaixo, pulando, acho que vai ser bem diferenteque claro, eles estariam no palco tocando, e o público lá embaixo escutando, seria bem diferente; de volta ao começo, no Thomeozão, não hesitou em chutar os suportes de microfone ao desabafar o capítulo de desânimo que havia sido escrito ali, exultando o público a não desistir de seus sonhos. Tudo numa euforia irreverente, voavam os irmãos Samuel e Sérgio, Dinho, Bento e Júlio - este com uma premonição muito nebulosa - ao encontro da morte: o avião perdera o contato com a torre do aeroporto de Brasília, os pilotos não entenderam o comando de lá. "Parece que o avião caía... eu não sei..."

Nada mais oportuno para a aparição fantasmática de Jean Baudrillard - não tanto pelo susto, mas pela lembrança confusa de algumas idéias suas, que tento confusamente ordenar. Segundo li uma vez, para ele só havia uma forma de produção cultural na pós-modernidade: o pastiche. Eis aí um elemento para a acolhida tão vibrante da banda, por mesclar rock, forró, brega, Chapolim Colorado, Robocop e o escravo-de-jó de maneira assas livresca. Mas o homúnculo francês certamente não escutou "Sabão Crá-Crá"; a música não o agradaria, decerto, e ele estava ocupado demais em regurgitar suas teses do simulacro, na crença descarada na entropia pós-moderna.

E aonde isso nos leva? Sei lá. Eu ouço a música deles uma vez ou outra, esmerando em imitar Dinho. Não sei até quando, mas quando parar não será por causa de Baudrillard. No entanto, ele declarou uns anos atrás que o fenômeno da pós-modernidade no Brasil era bem complexo para o alcance teórico dele (1), mais até que a americana. Aí talvez uma pista escondida para pensar, entre outras besteiras, o sucesso fulminante dos Mamonas Assassinas - a um só tempo músicos, bobalhões e (em última instância) humanos. Mas, sinceramente, pensaria mais neles se não fossem tão bestas, ou é a besteira deles que me oferece um quinhão de idéias para pensar a pós-modernidade?

(1) "Já me cobraram um livro sobre o Brasil. Cito-o em minhas Cool Memories (trabalho no quinto volume) e em outros textos, mas a cultura brasileira é muito complexa para meu alcance teórico. Ela não se enquadra muito em minhas preocupações com a contemporaneidade, não tem nada a ver com a americana, com seus dualismos maniqueístas, um país que se construiu a partir das simulações, um deserto da cultura no qual o vazio é tudo. Os Estados Unidos são o grau zero da cultura, possuem uma sociedade regressiva, primitiva e altamente original em sua vacuidade. No Brasil há leis de sensualidade e de alegria de viver, bem mais complicados de explicar. No Brasil, vigora o charme." A entrevisa completa está disponível aqui (créditos de Luís Antônio Giron, que entrevistou o sujeito e publicou na revista Época de 07/06/2003: http://www.consciencia.net/2003/06/07/baudrillard.html

Baú de traças