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| Amir Thaleb não liga pra essas distinções |
domingo, 5 de agosto de 2012
Os ventres do homem e da mulher
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Le roi est mort, vive le roi!
"Pô, Linha Plana, você leitor deve estar pensando: dá um desconto, cara! Você mal e mal se firmou como pseudônimo ou heterônimo de sabe-se lá quem, não mostra seus dotes e fica escrevendo qualquer merdinha, sem saber mesmo se alguém vai se dar o trabalho de ler isto". Alto lá! Alto lá! Antes merdinha do que mal-amado! Mas, pensando bem, eu tô chiando demais, não é verdade? E o troço acaba tomando uma dimensão hipócrita, pois foi com o assim chamado rei do pop que aprendi a andar na lua. MJ era ótimo bailarino, tava ensaiando com força pra turnê que ficou por iniciar. Quem é que não imita a coreografia do "Thriller", aquela porrada de zumbis enchendo os olhos dos espectadores? E o "Smooth Criminal", com umas paradas de breakdancing super bem boladas e aquela cena que o indivíduo se pergunta: comé que os bicho descem mais de quarenta graus inclinando pra frente sem cair? (Eu me pergunto até este momento, tá?) Pra deixar isso de lado, só o "Black or White" que o popstar vira uma onça de sai quebrando tudo...
Mas nem tudo é momento de carpir, minha gente. Os camelôs estão faturando com os vídeos dos ensaios; a galera em Hollywood, com a Calçada da Fama, com filas comparáveis apenas ao antigo INAMPS (alguém ainda se lembra do INAMPS?). Tem gente que chora, que dança, que tira sarro com essa cambada de trouxa que gasta o dinheiro com a morte dele... Vou entrar num conservatório pra afinar meu gogó, e tomar umas aulas de street dance pra caprichar nas coreografias e no MJ kick. Mas prometo às (improváveis) fãs que meu negócio será apenas com mulheres.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Só casando!

sábado, 16 de maio de 2009
O sonho do nome próprio
Deixei a questão da ortografia de lado e procurei ver se tinha como solucionar o problema da forma mais fácil. Isso siginificava, para mim, manter o direito de assinar "Antônio Lázaro V. B. Junior" - o último nome, normalmente acentuado, não recebe o acento agudo por pura preferência pessoal e pelo hábito, já que escrevo meu nome assim desde que fui alfabetizado, aos cinco anos de idade. Bastava ir a um cartório que o problema se resolvia. Claro que se resolvia; da forma como recebi a informação para isso, a coisa parecia ser bastante fácil. No entanto, quando vou a um ofício de notas saber como seria o processo, sou desmentido e a mulher me explicar que eu devo ir a Salvador (onde fica o cartório de origem de minha certidão), abrir um processo, aguardar pelo menos 45 dias e esperar que ele seja aceito! Oxente, pra quê esse tempo todo?! E eu resolvi continuar com a assinatura antiga; tanto é que perguntei a um colega se ele teve problemas com isso, e quando fui retirar a primeira via lá em Caxias não houve problemas em assinar normalmente.
Sei não, sei não. Quem é a funcionária pra me dizer que assinei errado? Aliás, o tabelião que me registrou não me perguntou como eu queria que meu nome fosse escrito. O argumento é vagabundamente falacioso, mas o que quero mostrar com ele é outra coisa: o tema da desobediência civil. Até que ponto devo obedecer o Estado como um "bom cidadão"? Uma coisa é trocar de sobrenomes quando se vai assinar, outra bastante diferente é alterar a ortografia. Alguém pode objetar que mesmo isso pode acarretar problemas, mas eu replico: e daí? Temos que dificultar tanto a burocracia mais do que agora? Eu não quero me constranger a mudar a assinatura por conta de qualquer poder pretensamente superior a mim. Isso é tão chato que, ao refazer o processo da identidade, errei (!!!) quando tive que assinar meu nome sem acento pela primeira vez, se bem que acertando (!!!) na segunda. Eu, hem... É mais fácil comprar uma casa do que arrumar um nome!
terça-feira, 28 de abril de 2009
"Desculpe por te alugar"
A recusa dela em aceitar o termo "afrodescendente", sem dúvida, geraria uma discussão acalorada, para dizer o mínimo. Mesmo concordando com ela que este é um país de mestiços (ainda que as comunidades quilombolas e os povos indígenas isolados na Amazônia constituam exceção), não vejo problemas em utilizar o termo; eu mesmo posso me considerar um, como legítimo soteropolitano e como apreciador de algumas manifestações culturais de origem africana. Além do mais, duvido muito que um afrodescendente atento homogeneize a situação dos africanos como ela pensa - muito pelo contrário, o motivo de se afirmar como descendente de povos africanos o torna solidário com os mendes, tutsis, hutus, zulus, quimbundos e tsongas, entre outros. A questão das cotas, ao que me parece, pode ser resolvida de forma menos controversa. Diante da possibilidade de falseamento de dados e do fenômeno do branqueamento ideológico, o critério pode passar de étnico para sócio-econômico ou, simplesmente, reservar uma parte das vagas a estudantes do ensino público; é o que o CEFET-RN - agora IFET-RN - tem feito há cerca de dez anos, e isso só pra mencionar o que conheço.
Por fim, voltemos ao começo do qüiproquó. Dizia ela que colocar grades na frente do IFCS estava correto; além do mais, os mendigos (é provável que eu esteja enganado, creio que se trata de moradores de rua, já que nunca os vi pedindo um vintém aos passantes) que conservassem a imundície para si mesmos - isto é, que não levassem a público o que se constitui como privado. Aí eu matuto com meus botões e digo: não será o contrário que acontece? Não será o público sucumbindo ao privado, através dos condomínios fechados, das grades e cercas-vivas que engolem as calçadas? Não estará a mesquinhez humana traçando o que lhe desejar, sem dar o menor cabimento aos demais? A estudante colega minha reproduziu, para meu tremendo espanto, um preconceito estúpido e paleolítico; é bem possível que haja indivíduos que prefiram morar na sarjeta, mas duvido muito que isso seja a regra; como também não é regra que um morador de rua, feito em Recife, passe pra escriturário do Banco do Brasil.
Pois é, caro leitor: parafraseando Millôr Fernandes em Todo Homem é Minha Caça, é desse jeito que perpetuamos a desumanidade do homem para com o homem. Mas o assunto tá chato, né? Desculpe por te alugar...
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Vida longa à livre distribuição 2
Vejamos bem: como você deve ter percebido, não gostei nem um pouco da notícia. Mas, agora, não se trata apenas de franca desobediência civil. A coisa toma uma dimensão mais, digamos, filosófica - embora não naquela acepção abstracionista, algo platônica - muito embora Derrida tenha uma escrita bastante circunvolumétrica, cheia de tortuosidades que podem assustar o estudioso apressado.
Ele (3) legou à filosofia contemporânea uma extensa crítica da metafísica tradicional, e entre seus alvos se encontram Platão, Rousseau, Heidegger... (Mas prefiro pensar, na esteira de Richard Rorty, que sua tentativa de superar a tradição filosófica não foi e nem poderia ter sido possível.) Entre as palavrinhas mágicas que criou - diferensa, phármakon, disseminação... -, "escritura" parece mais apropriada para meus propósitos de análise. Grosso modo, escritura se refere tanto à linguagem quanto a suas "condições de possibilidade" (o contexto histórico, social, cultural etc.); daí, ele fala, na Gramatologia, da existência de diversos tipos de escritura - militar, política, cibernética... Esta, por sua vez, está intimamente ligada ao que Horacio Potel fez. O fato é o seguinte: o que a palavra escritura marca - a linguagem e suas "condições de possibilidade" (os especialistas que me perdoem a expressão, não consigo achar outra mais apropriada) - não é, de forma alguma, absoluto, definitivo ou estável. A escritura é mais que água: escapa por entre os dedos, olhos, ouvidos (4) e quaisquer tentativas de rígida manipulação conceitual.
Não será esse, portanto, o caso do professor Potel? Melhor dizendo, não estará ele agindo de acordo com o pensamento de Derrida, implementando a escritura através da livre difusão dos textos? Ora, a Internet é, hoje em dia, a escritura par excellence; sua arquitetura permite, como nenhuma outra tecnologia o fez, a reproduçao ininterrupta e flexível de idéias. Obviamente que nem todo internauta é bonzinho - do contrário, não haveria crackers, pedófilos e trolls chutando o pau da barraca por aí; o problema, no entanto, é que a mesma lei que se encarrega - e mal - de combater essa galera também atrapalha o trabalho de indivíduos como Potel, que não ganhou um centavo com isso e corre o risco de desembolsar um valor absurdo com os direitos autorais simplesmente por facilitar o trabalho de outros pesquisadores como ele (5). Livre distribuição significa isso: reformar essa espelunca legislativa que entrava o acesso a materiais preciosos de pesquisa ou de simples entretenimento, quase sempre onerosos e fora do poder aquisitivo de uma porrada de gente por aí - ou, o que não é menos importante, oferecer mais uma alternativa de busca.
(1) Claro que é, senão não teria uma boa razão para escrever esta postagem - a não ser que desejasse tentar uma carreira tabloidista...
(2) Na verdade, era argelino; embora escrevesse tão bem o francês quanto Émile Zola ou Gilles Deleuze, quando falava se deixava transparecer como um estrangeiro. O homem sofreu na Argélia por ser judeu, ainda tinha nego tirando onda com o sotaque dele, e depois aprontam uma com sua obra...
(3) Derrida, não o estudioso apressado.
(4) Entre outras coisas, escritura também serve à crítica do fonocentrismo - a tendência, no pensamento ocidental, de privilegiar metáforas sonoras às escritas. Um ótimo texto para se perceber isso é A farmácia de Platão, no qual Derrida desmonta minuciosamente o uso que Platão fazia do vocábulo phármakon - traduzível por "veneno" ou "remédio", às vezes (e isso é uma das teses do ensaio de Derrida) intraduzível por apenas um deles, mantendo uma tentadora e inevitável ambigüidade.
(5) E eu, por falar - ops, por escrever! - nisso.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Cidade Maravigosa
Tá russo desse jeito. Não tem nem dois meses que cheguei, já fui assaltado duas vezes. A cidade é cara e acontece uma coisa dessas. A segunda maior cidade do Brasil, com tanto lugar bacana pra se visitar... OK, talvez eu tenha marcado touca, só que não vou deixar de sair por aqui por conta duma merda dessas; por outro lado, a polícia devia botar uns homens pra circular e tomar conta da área.
(1) Tomara que eu não fique paranóico!
(2) Ou seja, sofrer um outro assalto.
terça-feira, 17 de março de 2009
Vida longa à livre distribuição!
A comunidade era boa: bem moderada, sem spams, um foco crescente de colaboração virtual, já que os membros podiam solicitar os artistas de seu agrado, caso ainda não estivessem disponíveis para download. MPB, música eletrônica, rock, samba, pagode, swingueira (xi, bom parar com a listagem)... Mas o sucesso atraiu também o olho gordo de gente que só pensa em merda, ao pensar que a distribuição de músicas em mp3 - sem contar os vídeos e livros circulando por aí, embora em menor quantidade - lhes traz prejuízo; isto é, querem continuar suas atividades normalmente, sem mudar seus paradigmas conceituais.
Mas deixemos de filosofia e perguntemos: de que adianta atingir um foco isolado, se bem que grande, enquanto o resto da situação permanece? A Internet é o maior rizoma (data venia a Deleuze) já criado pelo engenho humano, o que significa uma flexibilidade sem precedentes na difusão de informação. Ora, um centro de informação destruído não atrapalha o resto do fluxo informacional, uma vez que, em tese, circulam cópias de cópias de cópias de cópias de cópias de... Em outras palavras, acabar com uma Discografias da vida não nos interromperá de achar alternativas. Depois de Henry David Thoreau e Richard Stallman, só o que pode interromper a escalada da livre distribuição é a aniquilação da raça humana!
P.S. (adicionado em 20 de março deste ano): ainda bem que não deram o braço a torcer! http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=56139232
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
FSM Belém 2009: balanço atrasado e relapso
Mas, e então? Que fazer, em quais oficinas participar, quais debates acompanhar e dar a cara a tapa? Perdi muito da programação entre preguiça, atividades canceladas, atrasos e mudanças feitas em cima da hora. Deu pra conferir, no entanto, a oficina de danças circulares, soltando um pouco mais o corpo e entrosando individualidades e coletividades; a caminhada de abertura, debaixo dum aguaceiro oportuníssimo e contagiante; a Feira Internacional de Economia Solidária dando uma amostra da força autogestora... Por outro lado, não conferi Lula mais Chávez e Morales nem Chomsky e Galeano, estes últimos na cidade sem companhia do Evento para chegar ao local. (Não tenho confirmação de fontes oficiais, mas se isso for mesmo verdade será difícil engolir.)
Entre as falhas, desentendimentos, sardonismos e dificuldades lá na capital do tecnobrega, me vêm à cabeça: 1) uns policiais dando provas secas de racismo, quando um deles soltou um “Esses preto safado” (não sei se alguém apareceu pra tentar furto ou outro delito, ou se foi um resmungo gratuito); 2) uma jornalista local, sobre os recém-nascidos de Terra Firme, soltou que choravam duas vezes – a primeira pra dar sinal de vida, a segunda pra distrair o médico enquanto afanam o relógio dele; 3) uma preiboizada compareceu em peso no Acampamento Internacional da Juventude. Deixou o peso da sujeira pela UFRA, certamente à espera de qualquer um que não eles para ser recolhida; 4) periferia é periferia em qualquer canto do planeta. Esse raciocínio indutivo, também válido para a estupidez e o preconceito no globo afora, explica cinicamente bem o fato de uns guris zoarem com meus cachos embaraçados, quando eu me dirigia de volta pra toca e dormir pro outro dia. Destilada a raiva silenciosa, no outro dia comentei o fato com uma garota, que contou uns episódios parecidos em algum bairro ou conjunto da Zona Norte de Natal (lembraê, Andresa!). E 5) uma venezuelana panfletando em apoio ao referendo de Chávez, que traveste totalitarismo em reeleição indefinida. Eu, pessoalmente, acho mais fácil o tenente-coronel copiar o exemplo do PRI no México, já que seria poupado o trabalho de mexer na Constituição.
Enfim, mais outras lembranças agradáveis: o guaraná Jesus, que presta pelo menos quando gelado; o lundu que lascou minhas cadeiras e me ajudou a tirar – muito bem, por sinal – as teias da boca; a feliz sensação de encarar a estrada longa sem riscos de Dramin ou cascas de limão. Da próxima vez, eu tomo coragem pra elaborar um registro mais detalhado, ou menos vagabundo.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Planejamento familiar: mensagem para 2009
Veio a minha cabeça uma série de reportagens no Fantástico com o médico Drauzio Varella. Não lembro se versavam sobre vários tópicos ou um só; de qualquer forma, uma delas me chamou bastante a atenção. O tema já é pisadíssimo, mais conhecido que seringa em hospital; porém, não houve como não ferver diante da entrevista.
Planejamento familiar. Como ter filhos? Quando ter filhos? Com quem ter filhos? Onde ter? Quantos ter? Qual o custo da prole? Qual a disposição em güentar chororô? Sei não. Fico muito com o pé atrás em duas situações: ou quando sobra vontade e falta infra-estrutura, ou o contrário. Fico com o pé mais atrás ainda quando as duas coisas faltam. Fico mais cético ainda quando, assistindo à entrevista de Drauzio Varella com um morador duma favela paulistana, este declara que não sabe o que é camisinha.
Como assim, não sabe o que é camisinha? Falta propaganda? Falta criatividade? Provavelmente. Mas boca-a-boca é a melhor publicidade do mundo, por ser a mais barata. Aí eu pergunto: como, numa das maiores cidades do mundo, um indivíduo como esse não sabe o que é um pedaço de látex lubrificado? Nunca ouviu falar? Duvido muito. Como isso é possível? Para mim, não tem outra explicação mais plausível - ou seja, humana: o homem não usa camisinha porque não quer. Não usa por conta daquela onda de chupar bala com papel, de querer ser másculo a todo custo - provando-o com o gozo dentro da parceira -, ou simplesmente porque a preguiça mental é forte o suficiente para esterilizar qualquer sentimento de curiosidade saudável.
É então que, puto com esses homens e mulheres (não saberia avaliar no momento quem vacila mais, mesmo com as estatísticas sendo mais favoráveis a elas) que não seguram a onda, sabendo que o tranco com os bruguelos não será fácil (não com as crianças que, voluntária ou involuntariamente, engordam os indicadores negativos do IBGE, OMS e o escambal); é então que me vem a idéia de postar algumas linhas de indignação e apelo: por que não planejar? É tão difícil assim pesar o orçamento e tomar alguns cuidados contraceptivos, para evitar gravidezes indesejadas e abortos? Bate uma tristeza danada quando a resposta é afirmativa...
Não sou algum neomalthusiano ou empregado da Rockefeller Foundation. Mas gostaria muito que os indivíduos saíssem desse torpor afetivo e tomassem mais cuidado com suas atitudes. Em um texto criticando a Igreja Católica (o que não vem ao caso), Bertrand Russell sintetizou, contundente, uma deontologia elucidativa a respeito do planejamento familiar: "Dever-se-ia ensinar aos rapazes e às moças que nada, salvo uma inclinação recíproca, pode justificar as relações sexuais. (...) Deveriam aprender que trazer um outro ser ao mundo é assunto muito sério, e que isso só deveria ser feito quando houvesse razoável perspectiva de que a criança pudesse gozar de saúde, de bons ambientes e de cuidados por parte dos pais. Deveriam também aprender métodos de controle da natalidade, tendentes a assegurar que as crianças só viessem quando fossem desejadas. Deveriam, finalmente, ser esclarecidas quanto aos perigos das doenças venéreas e quanto aos métodos de prevenção e cura. O aumento da felicidade humana, que se poderia esperar da educação sexual ministrada nessas bases, seria incomensurável." (1) Não reclamem da citação; mais comprida que ela é nossa teimosia em manter as coisas do jeito que estão. Um ótimo 2009, com mais planejamento familiar, afetivo, econômico (se bem que a crise global tá restringindo os esforços para este aqui) e vergonhal para vocês.
(1) Aquilo em que creio, em Por que não sou cristão.
domingo, 21 de dezembro de 2008
Do clitóris ao papanicolau
Ninfomania não tem mesmo hora pra chegar. Conversávamos, eu e meu irmão, qualquer besteira que não lembro nem importa lembrar agora. Conversávamos, ele lavando roupa, eu lavando os pratos, ao som de Titãs. Eu tava gostando da música, repetia ela várias vezes. Então, confabulando comigo mesmo, comecei a fazer um projeto simples de exegese. A base desta postagem é a primeira faixa do CD Tudo ao Mesmo Tempo Agora.
E, então, quando pega no ato, a jovem senhora menina sente o peso avassalador da verborragia histérica e precipitada. Agora, ela é chamada de suja; gritam que ela surja, o corpo e a mente imaculados pelas delícias proibidas. Ninguém nem sabe onde ela terá feito, muito menos se terá feito; no entanto, a simples suspeita do líquido grosso, melando seja lá qual for a parte de sua anatomia, é suficiente para arrumar justificativas estapafúrdias e invasivas da intimidade genital feminina. Aborta! Casa! Vai embora desta casa! (2)
Quando não se contentam com o grito, mandam imediatamente para o ginecologista, saber se o lacre está no lugar. Não é bem para isso que serve o papanicolau, mas o simples fato de poder ser feito já implica no diagnóstico positivo por parte dos pais, tutores, madrinhas etc. Implica, mais ainda, um prolongamento vergonhoso da tortura com a mulher, já que o homem pode muito bem sedá-la e fazer o que lhe vier à cabeça. O que era pra ser um exame de prevenção se torna o coroamento do ataque à mulher: (3) até onde sei, quase nenhuma gosta de dar satisfação de quem pega ou deixa de pegar em seu clitóris, não é mesmo?
(1) Alguém, sem entender essa prolixia falsamente intelectual, apenas diz: ah, o negócio é tocar uma siririca na gata, fazer ela gozar bem muito!
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Distopia e emancipação social
Pois bem: durante o bate-bola, veio a minha memória a figura de Richard Rorty. O filósofo norte-americano, morto em junho do ano passado, apostava na literatura como teoria social, em vez de conceitos filosóficos; ele próprio era professor de literatura comparada em Yale. Em Contingência, Ironia e Solidariedade, ele dedicou dois capítulos a Vladimir Nabokov e George Orwell, além de abordar Marcel Proust num capítulo em que estavam também presentes Nietzsche e Heidegger; lembro também de haver lido um ensaio juntando Heidegger, Kundera e Dickens (no Ensaios sobre Heidegger e outros). Entusiasmado, comecei a elaborar uma pergunta a respeito da literatura recente, se Ignácio ou Washington poderiam sugerir algumas leituras distópicas que seguissem na mesma linha. Queria perguntar outras coisas mais, só que não clareei as idéias a tempo de entrar no debate, mesmo porque pensava que a platéia pudesse lançar diretamente as questões. Me enganei.
Quando todo mundo se picou, ficaram uns gatos pingados para as fotos e autógrafos com os convidados da noite. Tirei meu exemplar d'O Ganhador da bolsa, passei para o autor, ele autografou e perguntou se a fala dele não havia sido enfadonha. Respondi que não. Tava quase lamentando a não-participação no debate e pensei: ora, daqui a dois meses não haverá o Fórum Social Mundial em Belém do Pará (4)? Não haverá discussões mais amplas e exaustivas sobre o tema? Tratei de sair da tenda onde estávamos e fui ver a galera lá fora, em frente ao palco musical.
(1) Se tiver quaisquer dúvidas sobre o ano desta postagem, confira a lista completa de postagens neste blog. =D
(2) É bom adquirir certas lembranças sem cair no hábito ridículo da tietagem.
(3) Como expliquei a meu colega Igor, que estava a meu lado no momento da palestra: distopia é o oposto de utopia.
(4) Normalmente as pessoas (eu incluso) esquecem que há duas cidades brasileiras com esse nome: uma no Pará e outra na Paraíba.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
H. P. Lovecraft e o monstro da Guiné

Não demorou muito: um cara comentou, em tom de brincadeira, se não seria Cthulhu dando as caras. Ingenuamente, repliquei o que ele já sabia - que o monstro em questão não tinha nada a ver com o personagem de H. P. Lovecraft. De qualquer forma, no entanto, fiz o que um internauta curioso normalmente faz: busca no Google ou então na Wikipédia. Um dos primeiros resultados da busca no Google foi um verbete na Wikipédia anglófona sobre o escritor norte-americano. Já sabia por alto qual a linha dele, mas o verbete me deixou mais curioso ainda a respeito de sua obra, e baixei alguns textos num servidor virtual de arquivos. Já tinha ouvido falar no Cthulhu; um colega meu fez um desenho do personagem. No verbete do Cthulhu Mythos está disponível esta aqui:

Mas, quando vi uma foto de Lovecraft, foi o cúmulo. Diante do que li, ela pareceu mais uma máscara mortuária:

(1) Isso já é sabido desde os tempos da Grécia, uma vez que um aristocrata era ensinado, entre outras coisas, a não fazer outra coisa que pensar ou, pelo menos, tomar cuidado para que seus empregados não lhe passassem a rasteira.
(2) Código de ética jornalística.
(3) Reproduzo aqui um comentário da referida postagem: "Sim, é uma baleia-corcunda sem qq dúvida. Pode-se dizer isso pela forma da barbatana q mostram, e pelas pregas de pele q esta no topo do corpo. Estas pregas situam-se na zona ventral do animal, e permitem q a garganta se expanda durante a alimentação. O formato das maxilas q começam tb a ficar expostas devido à decomposição do corpo comfirmam q é uma baleia de barbas." Categórico, não?
(4) "The most merciful thing in the world, I think, is the inability of the human mind to correlate all its contents... some day the piecing together of dissociated knowledge will open up such terrifying vistas of reality, and of our frightful position therein, that we shall either go mad from the revelation or flee from the light into the peace and safety of a new Dark Age."
sábado, 22 de novembro de 2008
Vestibular UFRN 2009 – Revisão geral
Daqui a algumas horas, o momento fatídico para diversos estudantes do ensino médio que concluem este ano e uns outros tantos que já passaram pelo colegial faz tempo, feito mainha.Alguns tópicos para revisão:
1. Aulões de véspera são uma piada de mau gosto, e só servem para encher o saco de estudantes e professores, mesmo quando se usa alimentos não-perecíveis como ingresso. Corujões, então, nem se fala; você, que virou a noite (ou tentou virar) com todas as apostilas do cursinho, caneta, pen-drive pra gravar o que os professores dizem, papéis pra anotação, dois litros de bomba de guaraná e pinças pra manter os olhos abertos – você, meu chapa, provavelmente perdeu um bocado de seu tempo com esses ritos de iniciação, estudando e revisando conteúdo do mesmo jeito que um ganso se alimenta de ração para servir de ingrediente de fois gras.
2. Ah, tá achando ruim que eu tire onda? A que horas você tem que chegar no local de prova? 7 horas e 15 minutos, certo? Já eu, que te fiscalizarei e cuidarei bem direitinho para que não dê uma de sabido e passe vergonha na sala onde estiver fazendo a prova, terei que estar no local de prova até as 6 e meia. Os coordenadores dos locais de prova, por sua vez, têm de aprontar o material para a prova na COMPERVE de madruga, lá pelas 4 e tantas. Portanto, não venha com chorumelas sobre as questões da prova nem muito menos reclame de insônia!
3. Continuando com a tiração de onda: uma amiga minha disse que o namorado dela provavelmente não a veria hoje devido a um desses aulões de revisão. Diz ele que quer tirar o primeiro lugar em geografia (se não me falha a memória). E ela, saudosa, doida pra dar uns beijos no cara... Ai ai ai... (Não sei se ela deseja ficar em primeiro também, já que, até uns dias atrás, era livro no café da manhã, almoço e janta, além da madrugada. Na última vez que vi ela (1), certamente conseguiu duas coisas: olheiras e um pouco de meu sardonismo, pra ver se ela aquietaria o facho e concordaria comigo no primeiro ponto desta postagem. Meu sucesso, obviamente, foi o menor possível.)
4. Fora de brincadeira, três curiosidades dignas de nota: 1) o vestibular da UFRN
é o único no Brasil que AINDA não passou por uma tentativa de fraude; 2) embora reformulada, o nível da prova AINDA é duvidoso, de fato que neguinho só não entra se for relapso ou nervoso; 3) AINDA assim, cinco estudantes daqui tentaram fraudar o vestibular de uma faculdade privada em João Pessoa. Ê beleza!
5. Por fim, brevíssimo simulado: Quando acabar de ler esta postagem, você vai: a) dar uma com sua namorada (ou namorado)? b) direto pro corujão mais próximo do local de sua prova? c) matar o vício da Internet? d) postar um comentário ofensivo?
(1) E então, o complemento pronominal é esse mesmo?
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Saia com foto de calcinha
A coisa começou uns tempos atrás, no Japão. No entanto, em vez de impressão na roupa (como no caso das modelos), a estampa é pintada. A mão nipônica é, de fato, meticulosa - reproduz fielmente a bunda da mulher; mas as fotos mostradas só tinham saias com estopa (3). Já as brazucas, ai titia!, ai se a moda pega! Claro que algumas vão optar por estampas de estopa também, mas algumas... Ê torança! (4) E, como não podia deixar de ser, houve consulta popular. Já se esperava a divergência de opiniões entre homens e mulheres, embora a maioria dos marmanjos tenham gostado da idéia. Naturalmente, aquela nuance de machismo: saia com foto só com a mulher dos outros.
Mas o que me chamou mais a atenção foi a proveniênica da vestimenta. Até onde sei, a cultura japonesa tradicional é sóbria até o osso - e isso apesar dos hentais. Cê veja como é a tal da pós-modernidade - muito semelhante ao efeito borboleta, ninguém sabe quais os efeitos dos fenômenos pelo mundo afora. Daqui a pouco vão fazer estampa pra destacar o capô...
P.S.: desculpem a falta de imagens, o Google não colabora...
P.S.S. (acrescentado em 23/11/2008): confiram o primeiro (e, até agora, único) comentário a esta postagem, é elucidativo para o efeito borboleta, isto é, efeito saia-com-foto.
(1) Sou VASP.
(2) Seriam damas de lotação? Ui!
(3) Fazendo a verificação idiomática no Google (só pra checar se outros lugares do Brasil usam estopa como no potiguês - português do RN -, isto é, uma calcinha enorme), não pude deixar de incluir esta piada:
"A garota veio do interior para a cidade grande para a sua primeira consulta ao ginecologista.
Quando o médico decidiu examiná-la e pediu que levantasse a saia, não conteve o riso.
- Seu dotôr - disse ela, envergonhada. - O senhor tá fazeno pôco de mim, só por causa di quê eu uso calcinha feita de estopa?
- Desculpe, senhorita! Só achei graça os dizeres: 'Ração para Pinto'."
(4) Sabe aquelas calcinhas diminutas, estilo Ana Maria ou Kátia Flávia (cf. Fausto Fawcett)?
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Deforma tributária
Tenho minhas dúvidas sobre essa reforma. Vão abaixar a contribuição patronal, como já tentaram a liquidação da CLT e - se não falha a memória - corte do 13º. Isso porque ainda é um projeto de lei. E se for aprovado?
Um cara na comunidade da UFRN no Orkut alegou que isso permitiria às empresas mais incentivos fiscais e, conseqüentemente, maior abertura de postos de trabalho. Mas, se se tem que reduzir a carga tributária sobre elas - e sobre o resto da população -, três pontos: 1) por quê o trabalhador? 2) por que não outros impostos? 3) por menos impostos que haja, há ainda o desvio deles, e não é pouco tutu indo pelo ralo. Já um outro defende a proporcionalidade do pagamento: quem lucra mais, paga mais. Daqui que isso ocorra, ainda vai ter muito patrão chiando e muito congressista bolando artimanhas desse gênero...
P.S.: não tem nada a ver com socialismo. Não preciso ser socialista para ser contra uma absurdade dessas. O motivo é muito simples: por que é que a corda tem que arrebentar do lado mais fraco? De resto, os patrões socialistas não melhoraram bastante a condição de seus trabalhadores, antes os afundaram num pântano mais movediço, já que nem mesmo tinham direito à greve.
P.S.S.: as informações - ainda que resumidas - sobre o PL foram extraídas daqui: http://br.noticias.yahoo.com/s/02112008/25/politica-projeto-corta-contribui-patronal-partir.html
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Para além da natureza e da cultura

O que é o ser humano? O que nos torna humanos? Há 200 anos existe tal separação: por um lado, aqueles que defendem que a natureza, a biologia, os genes etc. determinam e/ou condicionam a construção de tal adjetivo; por outro lado, o conjunto de profissionais das ciências humanas opta por apostar na cultura como o ponto de partida para a experiência não tão fácil de se constituir um ser humano. E então, quem está certo sobre a habilidade dos quenianos de vencer em corridas de fundo pelo globo afora? Quem tem razão sobre a habilidade dos mongóis em tirar duas notas simultâneas da garganta? Quem tem razão a respeito do debiloidismo cada vez crescente em nossa época?
Penso que, se continuarmos nesse dualismo, pouco progresso será feito. Natureza e cultura são esferas diferentes, claro; mas para que opô-las? Uma forma de superar essa antinomia é adotar a idéia de que nós, seres humanos, somos por natureza dotados de capacidade cultural, que a seu turno nos permite debater mais acerca de nossa natureza, e assim até o infinito. Alguém pode objetar, evidentemente, que isso empobrece o debate. Eu vou na via contrária: é exatamente a recusa em decidir por uma dessas dimensões que poderemos apreciá-las melhor, esforçando-nos em evitar comentários pífios como o de uma jovem sobre Kaspar: “um verdadeiro filho da natureza”. Aarrgh!
Não, Kaspar Hauser não é um filho da natureza. Nem um filho da cultura. O “não” aqui significa “não apenas”; nec natura nec cultura – Kaspar Hauser é uma simbiose desesperada e teimosa de ambas. Foi com um atraso de 16 anos que ele pôde ensaiar uma compreensão maior de seus pares, o que certamente não foi confortável, já que ele chegou a preferir sua casa à festa oferecida pelo conde Stanhope. Mesmo assim, com o pouco de cultura que respirou, conseguiu atentar um pouco para a mesquinhez de seus pares, que insistiam em manter essa dicotomia (e que prolongamos até hoje); e, após sua morte, foi a vez de eles entenderem um pouco melhor a dificuldade desse homem: analisando o cerebelo dilatado e o cérebro degenerado, é provável que eles hajam chegado à conclusão de que a natureza do homem que tinha dificuldades em absorver a cultura de sua época e lugar foi, na verdade, tolhida pela brutalidade de um pai perverso e por essa cultura inconseqüente.
P.S.: Para quem tem um pouco mais de curiosidade sobre o personagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Kaspar_Hauser
domingo, 5 de outubro de 2008
Parque das Tramóias: visite Natal
Quatro anos atrás, ela era vice do atual prefeito, Carlos Eduardo. Mas ela abdicou da cadeira de vice por pressões dentro da Prefeitura (isto é, ficou de escanteio), deixando pra entrar na Assembléia Legislativa, conseguindo ser a mais votada aqui na capital. No ano passado, entretanto, rolou a Operação Impacto expondo a podridão do poder instituído: 14 vereadores e alguns funcionários acusados de corrupção passiva - suborno - com uma empresa de construções local. O que seria feito? Muito simples: a segunda maior área de preservação ambiental em espaço urbano no Brasil - o Parque das Dunas - viraria um canteiro de obras com o passar dos anos; os prédios e casas e condomínios fechados tomando o lugar das dunas e lençóis freáticos, além de tornar a cidade um forno enorme, diminuindo a ventilação e criando ilhas de calor. E não é que a candidata vencedora teve uma conversa 'suspeita' ao telefone com um dos vereadores denunciados? (1)
A galera que votou nela (e noutros candidatos) objeta que eleitores como eu estão fazendo uma bravata exagerada, e que Fátima foi incoerente a respeito do acórdão com Vilma e Garibaldi. E o que ela faz, pelo amor de Deus? Um conhecido meu disse que ela tem projetos sociais(não lembro onde); mas como é que uma coisa assim não é veiculada? Agora bem, baseado nas circunstâncias atuais duvido muito da capacidade dela de gerir a prefeitura com um pouco de vergonha na cara. Gostaria muito de acreditar que ela pode exercer um mandato decente, mas prefiro deixar meu ceticismo ligado.
(1) http://rapidshare.de/files/40570609/Dialogo_de_Micarla_e_Julio_Protassio.MP3.html
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Eleições: de Natal a Guarabira
Não pude deixar de ficar surpreso. Há todo um pathos eleitoresco na cidade, marcado por uma semiótica bem demarcada: vermelho para o PMDB, azul para o PSDB, e por aí vai. Cada candidato, partido, figurão político convoca a seu redor uma quantidade régia de simpatizantes, maior e melhor (?!) que aquele comício de Jessier Quirino. (1) Minha amiga não constitui exceção; quando passeamos até o Monumento do Novo Milênio, ela ficou aperreada com a carreata da prefeita atual - que tenta reeleição -, pedindo que esperássemos a mundiça ir embora para voltarmos.
Voltando a Natal, o que mais leio no Orkut nas discussões envolvendo política eleitoral é a Operação Impacto (2): vereadores e funcionários subornados por uma construtora local para liberar geral aqui no Parque das Dunas, levando o que resta do equilíbrio ambiental e vergonha na cara. Mais da metade dos vereadores acusados se encontra nos primeiros lugares da preferência dos natalenses eleitores, o que me deixa bastante preocupado; sem contar que vários deles estão coligados com o PT de Fátima Bezerra, que gostaria de ver na prefeitura daqui ano que vem. Quer dizer, a coisa anda tão pra lá de Bagdá que tem nego apostando em Thoreau, votando nulo.
Pois bem: eu espantado com o pathos de Guarabira. Ela besta com a falta de envolvimento em Natal. No entanto, prefiro tentar dosar um pouco as coisas, ainda mais quando ela disse que a candidata dela fez e aconteceu quando era prefeita de lá. Claro que eu teria que passar algum tempo por lá e avaliar a situação; mas mesmo que tivesse a comprovação do que minha amiga anunciava, não poderia me deixar me levar muito por esse entusiasmo. Por isso que já estou pensando no que escrever pra XVIII Semana de Filosofia daqui da UFRN, tentando juntar um pouco do individualismo instituidor de Castoriadis com o anarquismo individualista de Thoreau. Estou mais para o primeiro, mas acabo com um trecho da Desobediência Civil: "Desejo primeiro não a ausência do governo, mas imediatamente um governo melhor. Que cada homem faça saber que tipo de governo lhe diria respeito, e este será um passo em vistas de obtê-lo" (3).
(1) "Pra se fazer um comício
Em tempo de eleição
Não carece de arrodei
Nem dinheiro muito não
Basta um F-4000
Ou qualquer mei caminhão
Entalado em beco estreito
E um bandeirado má feito
Cruzando em dez posição."
Aqui, na íntegra.
(2) Nome aos bois aqui. E o pedido de prisão foi feito.
sábado, 9 de agosto de 2008
Faturando com a birita (1)
Num sábado pela manhã (09 de agosto último), num curso de extensão de filosofia na Livraria Paulus, a bola da vez foram as drogas. Por que o ser humano usa elas? Qual o impacto delas na vida contemporânea, particularmente nas relações de poder, tão importantes quanto perversas?
Obviamente, o uso não é nada novo; chás de cogumelo, ayahuasca, peyotl e um cachimbinho fazem parte do cotidiano religioso ainda hoje, e em vários pontos do planeta. Abrir a mente mais rápido e entrar em sintonia com algo mais, e trazer algo de bom pra vida: essa era a proposta. Cada vez mais veloz as mentes (e bocas, e braços, e outros orifícios do corpo) se abrem hoje, e sempre algo mais pra sintonizar; mas que é que traz de bom? Ou melhor, é tão melhor que se fosse sem ela? Me refiro a qualquer coisa: a paquera que não decola, o poema que não mela o papel, a música surda no torpor criativo...
Deixem-me ser bastante direto e veemente quanto ao tópico da bebida (e do tabaco, do THC, do LSD, do que o engenho humano possa inventar): neste terceiro milênio, quanto mais cedo nos livrarmos deles, tanto ótimo será. Há outras vias de se chegar aos mesmos objetivos, sejam eles quais forem (3). Supondo que o leitor não cometa grandes exageros e queira viver um pouco mais que a média (mesmo que seja pra ver a ineficácia desta postagem), examino agora alguns motivos para não consumir drogas:
- Não vai ser para sempre que o corpo vai reagir legal a elas, seja numa pista de atletismo ou no quarto de motel;
- Não vai ser para sempre que As Portas da Percepção vão sair do punho de um Huxley - aliás, Hemingway queimou os neurônios de tanto álcool, e Raul Seixas poderia ter vivido um pouco mais e cantado mais se se livrasse dele; por pouco algo semelhante não ocorre a Ray Charles, que largou a heroína;
- Dinheiro não cai do céu, por isso não vale a pena gastar 200 contos com um grama de farinha, e até agora o investimento em clínicas de recuperação não tem sido de grande ajuda - aliás, de ropinol em ropinol os internos ficam mais atolados ainda na desgraça. Isso é particularmente verdadeiro pra hospitais psiquiátricos (4);
- Pode ser que, eventualmente, o barato compense defeitos como timidez ou burrice. Numa rave, entretanto, basta uma balinha a mais pra nego morrer mais convulsivo que um epiléptico, enquanto os demais riem de sua tragédia;
- Não, eu não quero tornar realidade certos ditos populares, como aconteceu um tempo atrás no Distrito Federal (5)...
(2) Por quê? Porque é sagrada?
(3) Hitler financiou uma pesquisa contra o câncer e organizou uma campanha para maximizar a potência do Reich, proibindo consumo de cigarro e estimulando os soldados a beber água mineral. Embora a abstinência não tenha qualquer relação estrita com a sanidade mental, não vejo porque não defendê-la, despotencializando outras sandices humanas.
(4) Foi o que aconteceu com Austregésilo Carrano, que teve sua trajetória narrada no livro Canto dos Malditos, adaptado para o cinema como Bicho de Sete Cabeças.
(5) Tipo assim:
