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domingo, 5 de agosto de 2012

Os ventres do homem e da mulher


Esta semana, na UFRN, conversando com uma colega do mestrado, lamentando por não ter podido assistir a sua apresentação de dança do ventre (até porque ela foi chamada de última hora), tirando uma onda porque, supostamente, eu observaria os detalhes da apresentação (ela estava parada havia um ano, e eu fiz uns dois meses, aí parei por motivos que escaparam a meu controle), e eu comento que havia feito dança do ventre... Não, ela respondeu, homens não fazem dança do ventre, homens fazem dança árabe.

Breve silêncio.

Tão breve que não deu nem um segundo e retruquei: como é a história? O que é dança árabe? E por que homens não dançam dança do ventre?

O primeiro argumento dela: homens não possuem ventre, só quem tem ventre são as mulheres. Pedi que definisse "ventre": porque, até onde eu saiba, "ventre" é o mesmo que "abdômen", "barriga", "bucho" - enfim, esse espaço ocupado por órgãos variados. Ela não sabia o que era "ventre". Oi? Mas ainda arrisquei, pra ver se ela soltava algo mais consistente: arrisquei a hipótese de que "ventre" = "útero". (A princípio ela não endossou, mas viria a adotar a metonímia mais tarde. Depois disso, cheguei à conclusão de que dança do ventre é mesmo uma coisa histérica (1).). E ela dizendo que o homem não fazia os mesmos movimentos que a mulher, e depois dizendo que homens quem dançavam dança do ventre não são bem vistos e são um fenômeno marginal... Ela ainda soltou um belíssimo argumento de autoridade, segundo o qual a professora com quem fez aula tem dezenove anos de experiência. Fora de brincadeira, eu entendi aonde ela queria chegar, mas simplesmente não soltou nenhum argumento coerente. O ônus da prova cabia a ela, mas ela delegou a mim a tarefa de pesquisar sobre o assunto. O que fiz. Hora de matar a cobra e mostrar o pau.

Segundo a hipótese mais aceita, a dança do ventre teria iniciado no Egito como uma reverência às fertilidades agrícola e reprodutiva. Alguns séculos mais tarde no entanto, apareceram os primeiros dançarinos, tão valorizados quanto as dançarinas - a ponto mesmo de serem preferidos em ambientes misóginos e conservadores. Só a partir do século XIII que tanto homens quanto mulheres passaram a ser malvistos se dançassem (2). O fato, porém, é que existem mesmo danças praticadas tipicamente por homens, como o tahtib (que também pode ser dançado por mulheres). Houve mesmo época em que a dança do ventre esteve ligada à prostituição e/ou  à atividade cortesã. É bom deixar claro um detalhe: a dança do ventre, tal como a conhecemos hoje em dia, possui origem bem recente apesar de suas antecedências milenares, datando da primeira metade do século XX, com o raqs sharqi; a expressão, no fim das contas, é um guarda-chuva pra um conjunto de danças similares nos movimentos e nos propósitos (de fertilidade, feminilidade etc.), e foi criada no século XIX a partir da onda orientalista que passou pela Europa de então.

Amir Thaleb não liga pra essas distinções

Acompanhando essa hipótese, existe entre várias praticantes um apego ferrenho a essa tradição "feminilista". Só mulé dança dança do ventre, só mulé ensina dança do ventre, só mulé saca de dança do ventre - e ai do homem que disser que faz, pois será tachado de gay e despertará a ira dos maridos ciumentos, que só liberam as esposas pra fazerem aula por causa desse preconceito largamente difundido! Olha, a falta à tradição mata; quando não mata, mingua aqueles que não a respeitam. Entretanto, uma coisa bastante simples é a seguinte: há outras mulheres que simplesmente não vêem nada de mal em que homens dancem; eles são igualmente admirados e, por vezes, invejados. Há alguns que põem movimentos feminis na coreografia, ao passo que outros emprestam uma dimensão masculina à dança (3). E, como já disse, há mulheres que também praticam danças masculinas.

Tudo isso está bem longe de ser queer, naturalmente; mas é digno de nota que a heterotopia marcante da pós-modernidade, agrupando em um mesmo topos práticas tidas por distintas e mesmo incompatíveis, de alguma forma perturba os pilares dessa tradição (ou pelo menos o modo como enxergamos tais pilares). Não pretendo de modo algum refutar a hipótese de que a dança do ventre surgiu como um culto à fertilidade. O que está em questão é simplesmente reconhecer que sim, existem homens que dançam dança do ventre, independente de dançarem como mulheres ou de serem gays ou whatever. Ponto. A própria garota reconheceu, na fala contraditória dela, que dançarinos do ventre são um fenômeno marginal; mas só porque é um fenômeno marginal não quer dizer que é um fenômeno inexistente. Homens passam roupa, mulheres dirigem caminhão. Homens e mulheres dançam dança do ventre. E dança do ventre não é mais uma coisa histérica.


P.S. (acrescentado em 11 de julho deste ano): a garota conversou comigo a respeito, reforçando uma última vez que a questão dela era em torno da nomenclatura (embora não tenha exatamente gostado do modo como a gente conversou - ou melhor, como me dirigi a ela). Reafirmou que a questão da dança do ventre não é que homens sejam proibidos de dançar. Ou pior, que ela simplesmente ache um absurdo que homens pratiquem essa modalidade e os recrimine por isso - quando escrevi acima sobre homens serem tachados de gays, isso se deve ao preconceito largamente difundido sobre a dança entre aqueles que não a conhecem ou praticam, muito embora a opinião dela contribua para esse preconceito de modo mais ou menos direto. Se o texto deu a entender que a declaração dela foi homofóbica, trato de esclarecer que não foi o caso.

Com efeito, segundo essa linha de pensamento, a expressão só se aplica às mulheres, pois "ventre" lá seria a representação do útero. Ocorre, porém, que "raqs sharqi" significa simplesmente "dança oriental" em árabe. Ou seja, este texto também toma a nomenclatura por ponto de partida, pois ela também é importante; o modo como a encaramos define bastante o modo como a praticamos. Nomear e fazer não se separam de forma estanque, especialmente quando se trata de um processo coletivo. Como afirmou Protágoras de Abdera, o homem é a medida de todas as coisas.


(1) Como todos sabemos, histeria vem do grego hysteron (útero). Dizia Freud que essa doença era típica das mulheres (apesar de os sintomas também existirem entre os homens). Não estou surpreso por ver um pouco desse freudismo em certas praticantes da dança do ventre (como minha colega).

(2) Dados livremente apropriados daqui e daqui.

(3) Bom lembrar que, quando se fala de masculino ou feminino aqui, estou me referindo ostensivamente a todo um sistema taxionômico de identificação de gêneros presente no Ocidente. Estou falando da recepção da dança do ventre aqui no Brasil, mais especificamente; ainda não faço idéia exata de como esses preconceitos funcionam em outros lugares. Mas basta mencionar o fato de que o raqs sharqi já mencionado foi fortemente censurado no Egito durante parte do século XX; mesmo as mulheres não poderiam estar com o corpo bastante descoberto. Seguramente, homens que dançam dança do ventre também não são bem vistos no mundo árabe.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Le roi est mort, vive le roi!

Já vai tarde. O povo é tão jururu, fica se importando com a vida alheia, quanto mais com a de um cantor que se via com o cu na mão devido a acusações de pedofilia; pra não mencionar o golpe que deu em Paul McCartney, tomando conta dos direitos autorais dos Beatles. Papai, que batia nele quando moleque, agora cresce o olho pros milhões que não recebeu de herança ("agora" é modo de dizer, porque os dois viviam num pega-pra-capar brabo com os direitos dos Beatles já citados); a enfermeira quer a guarda dos filhos, que estão sob custódia de mamãe. Nada mais justo pra uma criatura que pariu rebentos cuja paternidade foi posta em xeque: capaz que o dono do sêmen seja um cirurgião, ex-chefe dela, bem apessoado por sinal.

"Pô, Linha Plana, você leitor deve estar pensando: dá um desconto, cara! Você mal e mal se firmou como pseudônimo ou heterônimo de sabe-se lá quem, não mostra seus dotes e fica escrevendo qualquer merdinha, sem saber mesmo se alguém vai se dar o trabalho de ler isto". Alto lá! Alto lá! Antes merdinha do que mal-amado! Mas, pensando bem, eu tô chiando demais, não é verdade? E o troço acaba tomando uma dimensão hipócrita, pois foi com o assim chamado rei do pop que aprendi a andar na lua. MJ era ótimo bailarino, tava ensaiando com força pra turnê que ficou por iniciar. Quem é que não imita a coreografia do "Thriller", aquela porrada de zumbis enchendo os olhos dos espectadores? E o "Smooth Criminal", com umas paradas de breakdancing super bem boladas e aquela cena que o indivíduo se pergunta: comé que os bicho descem mais de quarenta graus inclinando pra frente sem cair? (Eu me pergunto até este momento, tá?) Pra deixar isso de lado, só o "Black or White" que o popstar vira uma onça de sai quebrando tudo...

Mas nem tudo é momento de carpir, minha gente. Os camelôs estão faturando com os vídeos dos ensaios; a galera em Hollywood, com a Calçada da Fama, com filas comparáveis apenas ao antigo INAMPS (alguém ainda se lembra do INAMPS?). Tem gente que chora, que dança, que tira sarro com essa cambada de trouxa que gasta o dinheiro com a morte dele... Vou entrar num conservatório pra afinar meu gogó, e tomar umas aulas de street dance pra caprichar nas coreografias e no MJ kick. Mas prometo às (improváveis) fãs que meu negócio será apenas com mulheres.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Só casando!

Agradável surpresa. Agradável e perturbadora. Numa mostra de cinema na Caixa Cultural aqui no Rio, que estará em cartaz de 19 a 31 de maio, estarão sendo rodados alguns filmes (20 longas e 3 curtas), tendo como tema o erotismo. O recorte histórico é compridinho, indo do fim da década de 10 até a retomada, com Madame Satã entre as seleções. Há também um minicurso organizado pelo curador da mostra, do qual perdi o primeiro dia, só começando a acompanhar a conjuntura do cinema erótico brasileiro a partir da década de 30 até a época das chanchadas.

Isso é o panorama geral. Mas a surpresa mesmo foi de encontrar duas obras de Nelson Rodrigues adaptadas para a película e rever uma delas nessa linguagem (já a havia visto no palco), Toda Nudez Será Castigada, dirigida por Arnaldo Jabor; a outra, Vestido de Noiva, só ouvi falar, ainda não vi nem a encenação. Um viúvo atormentado pela morte da esposa e que prometera a seu filho não se casar com uma outra se vê, de repente, na cama com uma prostituta, graças ao irmão, que teve essa idéia brilhante (1) para livrá-lo dessa neura. A princípio enojado com toda sua moral conservadora, Herculano se vê atraído por Geni, que lhe prega uma peça inspirada por Patrício, seu irmão: Só toca em mim casando, viu?! Só casando! Após decidir contrair o matrimônio com ela, ainda há o problema com Serginho, o filho ensandecido pela promessa do pai em se manter viúvo; esperneia, é estuprado na delegacia após fazer confusão num boteco (e fugirá, ao fim da trama, com ele - o ladrão boliviano), mas arma uma chantagem com Geni: ela se casa com Herculano, mas o trairá com o filho...


Mas, chega de resumos que isso é feio! Nelson Rodrigues, se era mesmo reacionário - desconheço maiores detalhes de sua biografia - pelo menos era pespicaz. Geni, derretida de paixão por Herculano, ao soltar o mantra matrimonial - lembremos, só casando! -, não deixa de jogar com a moral mesquinha do Brasil de então (2). Se é pra segurar o homem amado (!!!), e se o jeito é dançar conforme a música, então que ela saia pelo baile da vida a rodopiar trágica. Porém, nesse mesmo momento ela rompe com o estigma que lhe impõem - mulher de vida fácil, vagabunda, e etecéteras rançosos e sonsos; convida, ou melhor, obriga Herculano a largar seus chiliques anacrônicos e a dar um novo rumo a sua vida. Sua fantasia, no entanto, se vê desmanchada por Serginho, que a chantageia; consumida por essas cenas, e após vê-lo fugir com o ladrão boliviano, corta os pulsos e conta a verdade àquele que atraiu seus anseios de mulher. Da parte das tias de Herculano, eu até entendo: as velhas ficaram para tias mesmo, solteiras e malcomidas; só que ainda especulo qual o motivo da promessa que Serginho obrigou o pai a fazer.
Mais algo a dizer? Bom, com tanto puteiro aqui no Rio é capaz de eu separar uns trinta, quarenta reais e ver que tipo de peripécia me espera...
(1) Brilhante e lúbrica.

(2) O que não ajuda muito.

sábado, 16 de maio de 2009

O sonho do nome próprio

Quando fui tirar a primeira via de minha identidade aqui no Rio - fui assaltado em Caxias e levaram a que eu tinha feito em Natal -, não sabia que teria uma certa agonia com o processo. Fiz da primeira vez, não deu certo, por ter solicitado um processo de segunda via, ao invés de primeira (e isso graças ao pânico que a dona da casa onde eu tava em Caxias criou, que eu teria problemas se fizesse uma primeira via e tal; mas isso é outro papo), refiz o processo, e, na segunda vez, fui obrigado a assinar meu nome sem acento pela primeira vez em minha vida. Achava que se tratasse de algum maneirismo burocrático nas repartições fluminenses, só que fiquei sabendo que a falha foi da parte dos funcionários que fizeram minhas outras carteiras, por não atentar ao detalhe de que a assinatura deve seguir a ortografia da certidão de nascimento. Melhor dizendo, fui informado de que ambos erramos: eu e os funcionários - eu por assinar dessa forma por esse tempo todo, eles por falharem em sua tarefa.

Deixei a questão da ortografia de lado e procurei ver se tinha como solucionar o problema da forma mais fácil. Isso siginificava, para mim, manter o direito de assinar "Antônio Lázaro V. B. Junior" - o último nome, normalmente acentuado, não recebe o acento agudo por pura preferência pessoal e pelo hábito, já que escrevo meu nome assim desde que fui alfabetizado, aos cinco anos de idade. Bastava ir a um cartório que o problema se resolvia. Claro que se resolvia; da forma como recebi a informação para isso, a coisa parecia ser bastante fácil. No entanto, quando vou a um ofício de notas saber como seria o processo, sou desmentido e a mulher me explicar que eu devo ir a Salvador (onde fica o cartório de origem de minha certidão), abrir um processo, aguardar pelo menos 45 dias e esperar que ele seja aceito! Oxente, pra quê esse tempo todo?! E eu resolvi continuar com a assinatura antiga; tanto é que perguntei a um colega se ele teve problemas com isso, e quando fui retirar a primeira via lá em Caxias não houve problemas em assinar normalmente.

Sei não, sei não. Quem é a funcionária pra me dizer que assinei errado? Aliás, o tabelião que me registrou não me perguntou como eu queria que meu nome fosse escrito. O argumento é vagabundamente falacioso, mas o que quero mostrar com ele é outra coisa: o tema da desobediência civil. Até que ponto devo obedecer o Estado como um "bom cidadão"? Uma coisa é trocar de sobrenomes quando se vai assinar, outra bastante diferente é alterar a ortografia. Alguém pode objetar que mesmo isso pode acarretar problemas, mas eu replico: e daí? Temos que dificultar tanto a burocracia mais do que agora? Eu não quero me constranger a mudar a assinatura por conta de qualquer poder pretensamente superior a mim. Isso é tão chato que, ao refazer o processo da identidade, errei (!!!) quando tive que assinar meu nome sem acento pela primeira vez, se bem que acertando (!!!) na segunda. Eu, hem... É mais fácil comprar uma casa do que arrumar um nome!

terça-feira, 28 de abril de 2009

"Desculpe por te alugar"

Ninguém me pergunte como é que a mulher começou isso tudo. De um simples fato banal que acabava de comentar com ela (o aperto dos horários pra chegar do campus da UFRJ no Fundão, onde faço aulas de samba de gafieira, até o IFCS, pra assistir à aula de filosofia política), ela puxou pro caso dos mendigos em frente ao Instituto, pra galera que se amassa nas dependências do prédio, pro povo que se diz (ou, inferindo do raciocínio dela, se pretende dizer) afrodescendente, pro problema das cotas - numa palavra, prum bocado de assuntos que concernem aos destinos da sociedade brasileira. Foi realmente uma enxurrada de reclamações, das quais não ousei discordar naquela hora; sem traçar uma genealogia sobre o caráter dela - uma quarentona até agradável, apesar da verborragia -, notei que ela é o tipo da pessoa irrevogavelmente conservadora em sua perspectiva sociopolítica.


Mas, para que a coisa não passe em branco como simples litania, me deixe recapitular um pouco do que ela disse. O problema com os mendigos do IFCS foi, segundo entendi - muito embora o troço já aconteça há alguns anos, antes mesmo de eu sequer pensar em cursar filosofia (tô como intercambista na UFRJ) -, que as grades não resolviam a questão da segurança, além de delinear melhor o fosso entre a condição sócio-econômica dos estudantes e dos moradores de rua, que passou a se configurar em termos espaciais; as grades restringiriam ainda mais o acesso ao Instituto. Vários estudantes se opuseram à instalação da grade (pelo menos, os que comentaram o caso quando eu tava por perto), mas ela foi na via contrária de uma forma, no mínimo, anacrônica: não só estava correta a presença da grade na frente do prédio como também os próprios mendigos são culpados por sua miséria, sua indigência e sua sujeira. Minha colega ajuntou: se querem se sujar feito porcos, por que não o fazem em casa, longe do olhar do povo? O que é privado não precisa, de acordo com ela, chegar ao público...


Quanto aos demais pontos, tô sem saco de entrar em detalhes, mas bom: o raciocínio da galera se beijando no IFCS é parecido com o dos mendigos; a objeção dela com o termo "afrodescendente" se deve ao pega-pra-capar que rola no continente africano, além de sugerir uma forte tabula rasa com as origens dos povos de lá; por fim, a bronca com as cotas étnicas, já bastante batida, é por ela representar, em boa medida, um processo discriminatório, já que os critérios são puramente subjetivos (eu, que me considero mestiço, posso tranqüilamente afirmar que sou negro ao agente do IBGE que terei direito a essa facilidade) e não se apresenta como solução efetiva das desventuras pelas quais a educação brasileira passa.

Como eu não gostaria de bater boca por nada, posso agora rebater as idéias de minha colega. Vamos pela mais banal: os amassos dos estudantes no IFCS. Como se a galera vivesse de calças abaixadas ou, pelo menos, iniciando as preliminares pelos corredores ou no pátio! Obviamente que um casal aqui ou ali pode exagerar nas carícias, mas por que o incômodo? É assim tão indecente demonstrar o afeto em público?


A recusa dela em aceitar o termo "afrodescendente", sem dúvida, geraria uma discussão acalorada, para dizer o mínimo. Mesmo concordando com ela que este é um país de mestiços (ainda que as comunidades quilombolas e os povos indígenas isolados na Amazônia constituam exceção), não vejo problemas em utilizar o termo; eu mesmo posso me considerar um, como legítimo soteropolitano e como apreciador de algumas manifestações culturais de origem africana. Além do mais, duvido muito que um afrodescendente atento homogeneize a situação dos africanos como ela pensa - muito pelo contrário, o motivo de se afirmar como descendente de povos africanos o torna solidário com os mendes, tutsis, hutus, zulus, quimbundos e tsongas, entre outros. A questão das cotas, ao que me parece, pode ser resolvida de forma menos controversa. Diante da possibilidade de falseamento de dados e do fenômeno do branqueamento ideológico, o critério pode passar de étnico para sócio-econômico ou, simplesmente, reservar uma parte das vagas a estudantes do ensino público; é o que o CEFET-RN - agora IFET-RN - tem feito há cerca de dez anos, e isso só pra mencionar o que conheço.

Por fim, voltemos ao começo do qüiproquó. Dizia ela que colocar grades na frente do IFCS estava correto; além do mais, os mendigos (é provável que eu esteja enganado, creio que se trata de moradores de rua, já que nunca os vi pedindo um vintém aos passantes) que conservassem a imundície para si mesmos - isto é, que não levassem a público o que se constitui como privado. Aí eu matuto com meus botões e digo: não será o contrário que acontece? Não será o público sucumbindo ao privado, através dos condomínios fechados, das grades e cercas-vivas que engolem as calçadas? Não estará a mesquinhez humana traçando o que lhe desejar, sem dar o menor cabimento aos demais? A estudante colega minha reproduziu, para meu tremendo espanto, um preconceito estúpido e paleolítico; é bem possível que haja indivíduos que prefiram morar na sarjeta, mas duvido muito que isso seja a regra; como também não é regra que um morador de rua, feito em Recife, passe pra escriturário do Banco do Brasil.

Pois é, caro leitor: parafraseando Millôr Fernandes em Todo Homem é Minha Caça, é desse jeito que perpetuamos a desumanidade do homem para com o homem. Mas o assunto tá chato, né? Desculpe por te alugar...

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Vida longa à livre distribuição 2

Mas será possível? (1) Algum tempo depois de outra postagem, dou uma vasculhada num ótimo banco de dados com textos de Jacques Derrida (cf. na lista Desterritórios aqui ao lado), e o que acontece? Neca de pitibiribas. Horacio Potel, professor de filosofia na Universidad Nacional de Lanús, Argentina, está passando por maus bocados após sofrer um processo por parte da Cámara Argentina del Libro. A Cámara, por sua vez, atendeu a um pedido das Éditions de Minuit, editora francesa responsável pela publicação de diversos títulos do pensador francês (2). Eles alegaram que o prazo para a difusão da obra dele no domínio público não havia acabado, daí a ação legal (!!!) movida contra Potel.

Vejamos bem: como você deve ter percebido, não gostei nem um pouco da notícia. Mas, agora, não se trata apenas de franca desobediência civil. A coisa toma uma dimensão mais, digamos, filosófica - embora não naquela acepção abstracionista, algo platônica - muito embora Derrida tenha uma escrita bastante circunvolumétrica, cheia de tortuosidades que podem assustar o estudioso apressado.

Ele (3) legou à filosofia contemporânea uma extensa crítica da metafísica tradicional, e entre seus alvos se encontram Platão, Rousseau, Heidegger... (Mas prefiro pensar, na esteira de Richard Rorty, que sua tentativa de superar a tradição filosófica não foi e nem poderia ter sido possível.) Entre as palavrinhas mágicas que criou - diferensa, phármakon, disseminação... -, "escritura" parece mais apropriada para meus propósitos de análise. Grosso modo, escritura se refere tanto à linguagem quanto a suas "condições de possibilidade" (o contexto histórico, social, cultural etc.); daí, ele fala, na Gramatologia, da existência de diversos tipos de escritura - militar, política, cibernética... Esta, por sua vez, está intimamente ligada ao que Horacio Potel fez. O fato é o seguinte: o que a palavra escritura marca - a linguagem e suas "condições de possibilidade" (os especialistas que me perdoem a expressão, não consigo achar outra mais apropriada) - não é, de forma alguma, absoluto, definitivo ou estável. A escritura é mais que água: escapa por entre os dedos, olhos, ouvidos (4) e quaisquer tentativas de rígida manipulação conceitual.

Não será esse, portanto, o caso do professor Potel? Melhor dizendo, não estará ele agindo de acordo com o pensamento de Derrida, implementando a escritura através da livre difusão dos textos? Ora, a Internet é, hoje em dia, a escritura par excellence; sua arquitetura permite, como nenhuma outra tecnologia o fez, a reproduçao ininterrupta e flexível de idéias. Obviamente que nem todo internauta é bonzinho - do contrário, não haveria crackers, pedófilos e trolls chutando o pau da barraca por aí; o problema, no entanto, é que a mesma lei que se encarrega - e mal - de combater essa galera também atrapalha o trabalho de indivíduos como Potel, que não ganhou um centavo com isso e corre o risco de desembolsar um valor absurdo com os direitos autorais simplesmente por facilitar o trabalho de outros pesquisadores como ele (5). Livre distribuição significa isso: reformar essa espelunca legislativa que entrava o acesso a materiais preciosos de pesquisa ou de simples entretenimento, quase sempre onerosos e fora do poder aquisitivo de uma porrada de gente por aí - ou, o que não é menos importante, oferecer mais uma alternativa de busca.

(1) Claro que é, senão não teria uma boa razão para escrever esta postagem - a não ser que desejasse tentar uma carreira tabloidista...

(2) Na verdade, era argelino; embora escrevesse tão bem o francês quanto Émile Zola ou Gilles Deleuze, quando falava se deixava transparecer como um estrangeiro. O homem sofreu na Argélia por ser judeu, ainda tinha nego tirando onda com o sotaque dele, e depois aprontam uma com sua obra...

(3) Derrida, não o estudioso apressado.

(4) Entre outras coisas, escritura também serve à crítica do fonocentrismo - a tendência, no pensamento ocidental, de privilegiar metáforas sonoras às escritas. Um ótimo texto para se perceber isso é A farmácia de Platão, no qual Derrida desmonta minuciosamente o uso que Platão fazia do vocábulo phármakon - traduzível por "veneno" ou "remédio", às vezes (e isso é uma das teses do ensaio de Derrida) intraduzível por apenas um deles, mantendo uma tentadora e inevitável ambigüidade.

(5) E eu, por falar - ops, por escrever! - nisso.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Cidade Maravigosa

Quê? Cidade Maravigosa? Por que não? O Rio de Janeiro, fevereiro e março continua uma cidade maravilhosa e perigosa. Pô, ali na Presidente Vargas voltávamos eu e uma amiga minha do festival É Tudo Verdade, lá no CCBB, quando fomos abordados por moradores ali perto. De valioso, o celular dela e dois livros que eu tomara (1) emprestado aqui no IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, onde curso filosofia como intercambista). O preço deles? Quase noventa paus! Pelo menos não vou precisar pagar. (2)

Tá russo desse jeito. Não tem nem dois meses que cheguei, já fui assaltado duas vezes. A cidade é cara e acontece uma coisa dessas. A segunda maior cidade do Brasil, com tanto lugar bacana pra se visitar... OK, talvez eu tenha marcado touca, só que não vou deixar de sair por aqui por conta duma merda dessas; por outro lado, a polícia devia botar uns homens pra circular e tomar conta da área.

(1) Tomara que eu não fique paranóico!

(2) Ou seja, sofrer um outro assalto.

terça-feira, 17 de março de 2009

Vida longa à livre distribuição!

Caramba, como é que pode? Não sei quantos anos de serviços prestados à comunidade orkuteira que acabaram por pressão de empresas fonográficas, videográficas, n-gráficas que lucram em cima do copyright, da idiotice e do antiquadismo ideológico. Acabaram com a comunidade "Discografias" domingo último; ou melhor, os moderadores acharam por bem adiantar o serviço da galera adepta dos direitos autorais pré-cambrianos (isto é, que defendem que devemos necessariamente pagar por um produto intelectual, por sua difusão, citação e assim por diante).

A comunidade era boa: bem moderada, sem spams, um foco crescente de colaboração virtual, já que os membros podiam solicitar os artistas de seu agrado, caso ainda não estivessem disponíveis para download. MPB, música eletrônica, rock, samba, pagode, swingueira (xi, bom parar com a listagem)... Mas o sucesso atraiu também o olho gordo de gente que só pensa em merda, ao pensar que a distribuição de músicas em mp3 - sem contar os vídeos e livros circulando por aí, embora em menor quantidade - lhes traz prejuízo; isto é, querem continuar suas atividades normalmente, sem mudar seus paradigmas conceituais.

Mas deixemos de filosofia e perguntemos: de que adianta atingir um foco isolado, se bem que grande, enquanto o resto da situação permanece? A Internet é o maior rizoma (data venia a Deleuze) já criado pelo engenho humano, o que significa uma flexibilidade sem precedentes na difusão de informação. Ora, um centro de informação destruído não atrapalha o resto do fluxo informacional, uma vez que, em tese, circulam cópias de cópias de cópias de cópias de cópias de... Em outras palavras, acabar com uma Discografias da vida não nos interromperá de achar alternativas. Depois de Henry David Thoreau e Richard Stallman, só o que pode interromper a escalada da livre distribuição é a aniquilação da raça humana!

P.S. (adicionado em 20 de março deste ano): ainda bem que não deram o braço a torcer! http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=56139232

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

FSM Belém 2009: balanço atrasado e relapso

Nem sei por onde começar. Pela entrada da UFPA? Da UFRA? Talvez seja melhor fazer um apanhado bastante rizomático, contando apenas com o que eu lembrar. Belém, Cidade das Mangueiras, as voluntárias na Almirante Barroso entram no ônibus oferecendo informações gerais e falando pra gente tomar cuidado com as mangas na cabeça – quando o melhor seria mesmo tomar cuidado com nós mesmos. Com a cabeça ancorada no presente e se projetando para o futuro, não houve como não me deliciar com a Cidade Velha, um bairro inteiro de construções antigas e não fotografadas. O açaí amargo apesar do açúcar e da farinha (tem paraense que grita se adoçar!), o tacacá, pupunha e cupuaçu: mais itens para a memória gustativa. A família hospitaleira e tagarela – e eu achando que minha língua era solta e desmemoriada, meu Deus!, quantas vezes fui inquirido se tomava algo durante o almoço -, mas nada de ingratidão. A conferência de abertura do ENEFIL, bem esclarecedora acerca de meus planos para a pós-graduação, e a única coisa que aproveitei do encontro de meus colegas de curso, ocorrido ao mesmo tempo que o Fórum Social Mundial.

Mas, e então? Que fazer, em quais oficinas participar, quais debates acompanhar e dar a cara a tapa? Perdi muito da programação entre preguiça, atividades canceladas, atrasos e mudanças feitas em cima da hora. Deu pra conferir, no entanto, a oficina de danças circulares, soltando um pouco mais o corpo e entrosando individualidades e coletividades; a caminhada de abertura, debaixo dum aguaceiro oportuníssimo e contagiante; a Feira Internacional de Economia Solidária dando uma amostra da força autogestora... Por outro lado, não conferi Lula mais Chávez e Morales nem Chomsky e Galeano, estes últimos na cidade sem companhia do Evento para chegar ao local. (Não tenho confirmação de fontes oficiais, mas se isso for mesmo verdade será difícil engolir.)

Entre as falhas, desentendimentos, sardonismos e dificuldades lá na capital do tecnobrega, me vêm à cabeça: 1) uns policiais dando provas secas de racismo, quando um deles soltou um “Esses preto safado” (não sei se alguém apareceu pra tentar furto ou outro delito, ou se foi um resmungo gratuito); 2) uma jornalista local, sobre os recém-nascidos de Terra Firme, soltou que choravam duas vezes – a primeira pra dar sinal de vida, a segunda pra distrair o médico enquanto afanam o relógio dele; 3) uma preiboizada compareceu em peso no Acampamento Internacional da Juventude. Deixou o peso da sujeira pela UFRA, certamente à espera de qualquer um que não eles para ser recolhida; 4) periferia é periferia em qualquer canto do planeta. Esse raciocínio indutivo, também válido para a estupidez e o preconceito no globo afora, explica cinicamente bem o fato de uns guris zoarem com meus cachos embaraçados, quando eu me dirigia de volta pra toca e dormir pro outro dia. Destilada a raiva silenciosa, no outro dia comentei o fato com uma garota, que contou uns episódios parecidos em algum bairro ou conjunto da Zona Norte de Natal (lembraê, Andresa!). E 5) uma venezuelana panfletando em apoio ao referendo de Chávez, que traveste totalitarismo em reeleição indefinida. Eu, pessoalmente, acho mais fácil o tenente-coronel copiar o exemplo do PRI no México, já que seria poupado o trabalho de mexer na Constituição.

Enfim, mais outras lembranças agradáveis: o guaraná Jesus, que presta pelo menos quando gelado; o lundu que lascou minhas cadeiras e me ajudou a tirar – muito bem, por sinal – as teias da boca; a feliz sensação de encarar a estrada longa sem riscos de Dramin ou cascas de limão. Da próxima vez, eu tomo coragem pra elaborar um registro mais detalhado, ou menos vagabundo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Planejamento familiar: mensagem para 2009

Pensei: como começar este 2009 com um pouco menos de estupidez? Como tornar o ano do Sol (não liguem para devaneios astrológicos se não quiserem) menos insípido, mais humano etc.? Uma boa é seguir o exemplo de Macchiavelli: evitar as desgraças futuras estudando as passadas.

Veio a minha cabeça uma série de reportagens no Fantástico com o médico Drauzio Varella. Não lembro se versavam sobre vários tópicos ou um só; de qualquer forma, uma delas me chamou bastante a atenção. O tema já é pisadíssimo, mais conhecido que seringa em hospital; porém, não houve como não ferver diante da entrevista.

Planejamento familiar. Como ter filhos? Quando ter filhos? Com quem ter filhos? Onde ter? Quantos ter? Qual o custo da prole? Qual a disposição em güentar chororô? Sei não. Fico muito com o pé atrás em duas situações: ou quando sobra vontade e falta infra-estrutura, ou o contrário. Fico com o pé mais atrás ainda quando as duas coisas faltam. Fico mais cético ainda quando, assistindo à entrevista de Drauzio Varella com um morador duma favela paulistana, este declara que não sabe o que é camisinha.

Como assim, não sabe o que é camisinha? Falta propaganda? Falta criatividade? Provavelmente. Mas boca-a-boca é a melhor publicidade do mundo, por ser a mais barata. Aí eu pergunto: como, numa das maiores cidades do mundo, um indivíduo como esse não sabe o que é um pedaço de látex lubrificado? Nunca ouviu falar? Duvido muito. Como isso é possível? Para mim, não tem outra explicação mais plausível - ou seja, humana: o homem não usa camisinha porque não quer. Não usa por conta daquela onda de chupar bala com papel, de querer ser másculo a todo custo - provando-o com o gozo dentro da parceira -, ou simplesmente porque a preguiça mental é forte o suficiente para esterilizar qualquer sentimento de curiosidade saudável.

É então que, puto com esses homens e mulheres (não saberia avaliar no momento quem vacila mais, mesmo com as estatísticas sendo mais favoráveis a elas) que não seguram a onda, sabendo que o tranco com os bruguelos não será fácil (não com as crianças que, voluntária ou involuntariamente, engordam os indicadores negativos do IBGE, OMS e o escambal); é então que me vem a idéia de postar algumas linhas de indignação e apelo: por que não planejar? É tão difícil assim pesar o orçamento e tomar alguns cuidados contraceptivos, para evitar gravidezes indesejadas e abortos? Bate uma tristeza danada quando a resposta é afirmativa...

Não sou algum neomalthusiano ou empregado da Rockefeller Foundation. Mas gostaria muito que os indivíduos saíssem desse torpor afetivo e tomassem mais cuidado com suas atitudes. Em um texto criticando a Igreja Católica (o que não vem ao caso), Bertrand Russell sintetizou, contundente, uma deontologia elucidativa a respeito do planejamento familiar: "
Dever-se-ia ensinar aos rapazes e às moças que nada, salvo uma inclinação recíproca, pode justificar as relações sexuais. (...) Deveriam aprender que trazer um outro ser ao mundo é assunto muito sério, e que isso só deveria ser feito quando houvesse razoável perspectiva de que a criança pudesse gozar de saúde, de bons ambientes e de cuidados por parte dos pais. Deveriam também aprender métodos de controle da natalidade, tendentes a assegurar que as crianças só viessem quando fossem desejadas. Deveriam, finalmente, ser esclarecidas quanto aos perigos das doenças venéreas e quanto aos métodos de prevenção e cura. O aumento da felicidade humana, que se poderia esperar da educação sexual ministrada nessas bases, seria incomensurável." (1) Não reclamem da citação; mais comprida que ela é nossa teimosia em manter as coisas do jeito que estão. Um ótimo 2009, com mais planejamento familiar, afetivo, econômico (se bem que a crise global tá restringindo os esforços para este aqui) e vergonhal para vocês.


(1) Aquilo em que creio, em Por que não sou cristão.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Do clitóris ao papanicolau

Ninfomania não tem mesmo hora pra chegar. Conversávamos, eu e meu irmão, qualquer besteira que não lembro nem importa lembrar agora. Conversávamos, ele lavando roupa, eu lavando os pratos, ao som de Titãs. Eu tava gostando da música, repetia ela várias vezes. Então, confabulando comigo mesmo, comecei a fazer um projeto simples de exegese. A base desta postagem é a primeira faixa do CD Tudo ao Mesmo Tempo Agora.

Vejamos, então, o primeiro verso. Parece um mantra, repete solenemente o nome daquele botão carnal, daquele centro vulcânico da genitália externa da mulher:o clitóris. A etimologia sugere o toque lascivo das partes pudendas: nada como um roçar, vaivém frenético e apetitoso, tanto faz se é o dedo, o pênis ou a língua; o toque delicioso faz estremecer e explodir na volúpia localizada, que não tarda a se expandir e ganhar o corpo inteiro de sua dona (1).Tudo isso a despeito de práticas em certas regiões do globo, notadamente entre muçulmanos no Oriente Médio e algumas etnias africanas, que o enxertam todo, levando embora até a vulva, se necessário. Basta um contato, mesmo o mais efêmero e tímido: então a jovem senhora menina experimenta o que quer o que pode essa anatomia.
No entanto, nem todo mundo gosta desse marcador biológico. Não me refiro a workaholics, adeptos do SM, ou àquelas que, por força de dramas pessoais, congelou e estagnou a sensibilidade daquela jóia dourada. Me refiro à Igreja Católica, uma grande responsável pelo tabu da sexualidade em geral e, naturalmente, ele não estava de fora. Em vez do clitóris, friccionemos o genuflexório na hora da missa. Deixemos o prazer carnal de fora, uma vez que existem prazeres mais sublimes e duradouros para além desta vida. Ainda há o confessionário para ajudar a suprimir esses pensamentos pervertidos. Mas pensemos bem: até que ponto um homem que se diz casto pode orientar os (e principalmente as) fiéis a deixar o sexo – e, conseqüentemente, o clitóris – para depois do casamento? O celibato foi um dos piores dogmas instituídos pelo catolicismo, que tolhe e deforma a sexualidade de clérigos por todo a parte. (Estou pondo de fora aqueles que, sem qualquer coerção – ainda menos a religiosa – , passam muito bem sem o sexo; mas esta é uma minoria cada vez mais minoritária.) Não sem razão, o Opus Dei sai por aí à cata de padres pedófilos, abafando os escândalos sexuais tão recorrentes em lugares como os EUA. Ainda nos Estados Unidos, mais precisamente em Los Angeles: ê lugarzinho pra ter figurinhas eclesiásticas reacionárias! Lembro de ter lido um capítulo dum livro de Mike Davis (Cidade de Quartzo – Escavando o Futuro de Los Angeles) apenas sobre elas; entre suas atividades, estava incluso um boicote à campanha contra a AIDS e, se não me engano, incentivando o não-uso da camisinha. Então podemos aumentar a promiscuidade assim de qualquer maneira? Duvido que qualquer fiel devidamente esclarecido e com vida sexual ativa – a despeito das recomendações papais, cardinais etc. – evite pegar um pedaço de borracha pra deixar o gozo mais seguro.

E, então, quando pega no ato, a jovem senhora menina sente o peso avassalador da verborragia histérica e precipitada. Agora, ela é chamada de suja; gritam que ela surja, o corpo e a mente imaculados pelas delícias proibidas. Ninguém nem sabe onde ela terá feito, muito menos se terá feito; no entanto, a simples suspeita do líquido grosso, melando seja lá qual for a parte de sua anatomia, é suficiente para arrumar justificativas estapafúrdias e invasivas da intimidade genital feminina. Aborta! Casa! Vai embora desta casa! (2)

Quando não se contentam com o grito, mandam imediatamente para o ginecologista, saber se o lacre está no lugar. Não é bem para isso que serve o papanicolau, mas o simples fato de poder ser feito já implica no diagnóstico positivo por parte dos pais, tutores, madrinhas etc. Implica, mais ainda, um prolongamento vergonhoso da tortura com a mulher, já que o homem pode muito bem sedá-la e fazer o que lhe vier à cabeça. O que era pra ser um exame de prevenção se torna o coroamento do ataque à mulher: (3) até onde sei, quase nenhuma gosta de dar satisfação de quem pega ou deixa de pegar em seu clitóris, não é mesmo?

(1) Alguém, sem entender essa prolixia falsamente intelectual, apenas diz: ah, o negócio é tocar uma siririca na gata, fazer ela gozar bem muito!
(2) Isso me lembrou – mente suja imunda – um grito de guerra, um slogan sardônico e pouco criativo. Não tenho mais o que acrescentar nesse parágrafo, porque a letra já é eloqüente por demais.
(3) Não sejamos tão precipitados: de repente ela esteja brincando de médico com o pé-de-lã e eu não saiba.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Distopia e emancipação social

Sexta-feira, 30 de novembro do ano corrente (1), III Encontro Natalense de Escritores, lá ia eu doido pra pegar um autógrafo (2) com Ignácio de Loyola Brandão e conferir o que ele, juntamente com Washington Novaes, tinha a falar. Ambos brindaram a - infelizmente não tão grande - platéia com o tópico de debate, que era o romance "Não Verás País Nenhum", do escritor araraquarense. Uma distopia (3) na qual faltava água potável (a reciclagem de urina e dessalinização da água do mar como alternativa), o calor era infernal, o planeta já bastante engolido pela água... Isso num tempo que debates sobre meio ambiente eram excentricidade. Aí entra em cena o jornalista, pontuando alguns trechos do romance e os concatenando com desastres ambientais e sociais da história recente. Dá o que pensar - e não é pouca coisa...

Pois bem: durante o bate-bola, veio a minha memória a figura de Richard Rorty. O filósofo norte-americano, morto em junho do ano passado, apostava na literatura como teoria social, em vez de conceitos filosóficos; ele próprio era professor de literatura comparada em Yale. Em Contingência, Ironia e Solidariedade, ele dedicou dois capítulos a Vladimir Nabokov e George Orwell, além de abordar Marcel Proust num capítulo em que estavam também presentes Nietzsche e Heidegger; lembro também de haver lido um ensaio juntando Heidegger, Kundera e Dickens (no Ensaios sobre Heidegger e outros). Entusiasmado, comecei a elaborar uma pergunta a respeito da literatura recente, se Ignácio ou Washington poderiam sugerir algumas leituras distópicas que seguissem na mesma linha. Queria perguntar outras coisas mais, só que não clareei as idéias a tempo de entrar no debate, mesmo porque pensava que a platéia pudesse lançar diretamente as questões. Me enganei.

Quando todo mundo se picou, ficaram uns gatos pingados para as fotos e autógrafos com os convidados da noite. Tirei meu exemplar d'O Ganhador da bolsa, passei para o autor, ele autografou e perguntou se a fala dele não havia sido enfadonha. Respondi que não. Tava quase lamentando a não-participação no debate e pensei: ora, daqui a dois meses não haverá o Fórum Social Mundial em Belém do Pará (4)? Não haverá discussões mais amplas e exaustivas sobre o tema? Tratei de sair da tenda onde estávamos e fui ver a galera lá fora, em frente ao palco musical.

(1) Se tiver quaisquer dúvidas sobre o ano desta postagem, confira a lista completa de postagens neste blog. =D

(2) É bom adquirir certas lembranças sem cair no hábito ridículo da tietagem.

(3) Como expliquei a meu colega Igor, que estava a meu lado no momento da palestra: distopia é o oposto de utopia.

(4) Normalmente as pessoas (eu incluso) esquecem que há duas cidades brasileiras com esse nome: uma no Pará e outra na Paraíba.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

H. P. Lovecraft e o monstro da Guiné

Gente, impressionante como a falta do que fazer nos dá o que pensar (1). Tô vendo um tópico na comunidade da UFRN no Orkut, e o que aparece? As fotos de uma criatura esquisitíssima. Na verdade, as conferi na página do programa Globo Rural que, por sua vez, obteve as fotos do jornal russo Pravda, que ninguém sabe onde as obteve (2). Num primeiro momento, tentei encontrar algum correspondente conhecido para aquele monte de carne putrefata, mas sem sucesso. Fiquei besta com as fotos. Vai aqui uma palhinha:



Não demorou muito: um cara comentou, em tom de brincadeira, se não seria Cthulhu dando as caras. Ingenuamente, repliquei o que ele já sabia - que o monstro em questão não tinha nada a ver com o personagem de H. P. Lovecraft. De qualquer forma, no entanto, fiz o que um internauta curioso normalmente faz: busca no Google ou então na Wikipédia. Um dos primeiros resultados da busca no Google foi um verbete na Wikipédia anglófona sobre o escritor norte-americano. Já sabia por alto qual a linha dele, mas o verbete me deixou mais curioso ainda a respeito de sua obra, e baixei alguns textos num servidor virtual de arquivos. Já tinha ouvido falar no Cthulhu; um colega meu fez um desenho do personagem. No verbete do Cthulhu Mythos está disponível esta aqui:


Mas, quando vi uma foto de Lovecraft, foi o cúmulo. Diante do que li, ela pareceu mais uma máscara mortuária:


Juntei o monstro da Guiné com Lovecraft por algumas razões. Uma, porque ambos são horrendos até a náusea (embora eu deva pegar o material de Lovecraft pra passar a vista e ver se tem algo a ver com literatura cyberpunk, ou se influenciou, sei lá; vai saber das idiossincrasias de um graduando em filosofia que, sem ter escrito a monografia, já pensa num projeto de doutorado). Segundo, porque aquela história do monstro da Guiné pode ser pura e simplesmente (e para meu espanto e constatação de que, afinal de contas, não devemos acreditar em tudo que nos contam) um hoax; uma postagem num blog português sugere que aquele monstro é, provavelmente, uma baleia (cachalote ou baleia-corcunda), devido à presença de pêlos e pregas na pele já carcomida (3). A ironia maior daí advinda é que o nome do jornal onde as fotos foram publicadas, pravda, significa verdade em russo, o que leva naturalmente a reforçar o ceticismo quanto às informações da Internet em geral e a credibilidade do jornalista em particular. Por fim, há uma citação, do The Call of Cthulhu no artigo de Lovecraft que consegue ser ao mesmo tempo elucidativa e pessimista (e que traduzo livremente): "A coisa mais misericordiosa no mundo, penso eu, é a inabilidade da mente humana de correlacionar todo o seu conteúdo... Um dia, encaixar o conhecimento disperso abrirá horizontes tão aterrorizantes da realidade, e de nossa medrosa situação dentro dela, que ou enlouqueceremos por conta da revelação ou fugir da luz para a paz e a segurança de uma nova Idade Média" (4). Bom, não sei se deveríamos levá-lo muito a sério, mas ao menos ela nos ajuda a prestar mais atenção nos "monstros" que vemos por aí...

(1) Isso já é sabido desde os tempos da Grécia, uma vez que um aristocrata era ensinado, entre outras coisas, a não fazer outra coisa que pensar ou, pelo menos, tomar cuidado para que seus empregados não lhe passassem a rasteira.

(2) Código de ética jornalística.

(3) Reproduzo aqui um comentário da referida postagem:
"Sim, é uma baleia-corcunda sem qq dúvida. Pode-se dizer isso pela forma da barbatana q mostram, e pelas pregas de pele q esta no topo do corpo. Estas pregas situam-se na zona ventral do animal, e permitem q a garganta se expanda durante a alimentação. O formato das maxilas q começam tb a ficar expostas devido à decomposição do corpo comfirmam q é uma baleia de barbas." Categórico, não?

(4) "The most merciful thing in the world, I think, is the inability of the human mind to correlate all its contents... some day the piecing together of dissociated knowledge will open up such terrifying vistas of reality, and of our frightful position therein, that we shall either go mad from the revelation or flee from the light into the peace and safety of a new Dark Age."

sábado, 22 de novembro de 2008

Vestibular UFRN 2009 – Revisão geral

Daqui a algumas horas, o momento fatídico para diversos estudantes do ensino médio que concluem este ano e uns outros tantos que já passaram pelo colegial faz tempo, feito mainha.Alguns tópicos para revisão:

1. Aulões de véspera são uma piada de mau gosto, e só servem para encher o saco de estudantes e professores, mesmo quando se usa alimentos não-perecíveis como ingresso. Corujões, então, nem se fala; você, que virou a noite (ou tentou virar) com todas as apostilas do cursinho, caneta, pen-drive pra gravar o que os professores dizem, papéis pra anotação, dois litros de bomba de guaraná e pinças pra manter os olhos abertos – você, meu chapa, provavelmente perdeu um bocado de seu tempo com esses ritos de iniciação, estudando e revisando conteúdo do mesmo jeito que um ganso se alimenta de ração para servir de ingrediente de fois gras.


2. Ah, tá achando ruim que eu tire onda? A que horas você tem que chegar no local de prova? 7 horas e 15 minutos, certo? Já eu, que te fiscalizarei e cuidarei bem direitinho para que não dê uma de sabido e passe vergonha na sala onde estiver fazendo a prova, terei que estar no local de prova até as 6 e meia. Os coordenadores dos locais de prova, por sua vez, têm de aprontar o material para a prova na COMPERVE de madruga, lá pelas 4 e tantas. Portanto, não venha com chorumelas sobre as questões da prova nem muito menos reclame de insônia!

3. Continuando com a tiração de onda: uma amiga minha disse que o namorado dela provavelmente não a veria hoje devido a um desses aulões de revisão. Diz ele que quer tirar o primeiro lugar em geografia (se não me falha a memória). E ela, saudosa, doida pra dar uns beijos no cara... Ai ai ai... (Não sei se ela deseja ficar em primeiro também, já que, até uns dias atrás, era livro no café da manhã, almoço e janta, além da madrugada. Na última vez que vi ela (1), certamente conseguiu duas coisas: olheiras e um pouco de meu sardonismo, pra ver se ela aquietaria o facho e concordaria comigo no primeiro ponto desta postagem. Meu sucesso, obviamente, foi o menor possível.)

4. Fora de brincadeira, três curiosidades dignas de nota: 1) o vestibular da UFRN
é o único no Brasil que AINDA não passou por uma tentativa de fraude; 2) embora reformulada, o nível da prova AINDA é duvidoso, de fato que neguinho só não entra se for relapso ou nervoso; 3) AINDA assim,
cinco estudantes daqui tentaram fraudar o vestibular de uma faculdade privada em João Pessoa. Ê beleza!

5. Por fim, brevíssimo simulado: Quando acabar de ler esta postagem, você vai: a) dar uma com sua namorada (ou namorado)? b) direto pro corujão mais próximo do local de sua prova? c) matar o vício da Internet? d) postar um comentário ofensivo?

(1) E então, o complemento pronominal é esse mesmo?

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Saia com foto de calcinha

Tô sem fazer nada em casa (1) e, de repente, paro pra assistir o Tudo é possível, apresentado por Eliana na Record. Aí eu vejo cinco boazudas desfilando numa rua, com saias estampadas com calcinhas atrás. Isso mesmo: saia com foto de calcinha. Acompanhando as damas (2), a pergunta soltada pela loura: essa moda pega?

A coisa começou uns tempos atrás, no Japão. No entanto, em vez de impressão na roupa (como no caso das modelos), a estampa é pintada. A mão nipônica é, de fato, meticulosa - reproduz fielmente a bunda da mulher; mas as fotos mostradas só tinham saias com estopa (3). Já as brazucas, ai titia!, ai se a moda pega! Claro que algumas vão optar por estampas de estopa também, mas algumas... Ê torança! (4) E, como não podia deixar de ser, houve consulta popular. Já se esperava a divergência de opiniões entre homens e mulheres, embora a maioria dos marmanjos tenham gostado da idéia. Naturalmente, aquela nuance de machismo: saia com foto só com a mulher dos outros.

Mas o que me chamou mais a atenção foi a proveniênica da vestimenta. Até onde sei, a cultura japonesa tradicional é sóbria até o osso - e isso apesar dos hentais. Cê veja como é a tal da pós-modernidade - muito semelhante ao efeito borboleta, ninguém sabe quais os efeitos dos fenômenos pelo mundo afora. Daqui a pouco vão fazer estampa pra destacar o capô...

P.S.: desculpem a falta de imagens, o Google não colabora...
P.S.S. (acrescentado em 23/11/2008): confiram o primeiro (e, até agora, único) comentário a esta postagem, é elucidativo para o efeito borboleta, isto é, efeito saia-com-foto.

(1) Sou VASP.
(2) Seriam damas de lotação? Ui!
(3) Fazendo a verificação idiomática no Google (só pra checar se outros lugares do Brasil usam estopa como no potiguês - português do RN -, isto é, uma calcinha enorme), não pude deixar de incluir esta piada:

"A garota veio do interior para a cidade grande para a sua primeira consulta ao ginecologista.
Quando o médico decidiu examiná-la e pediu que levantasse a saia, não conteve o riso.
- Seu dotôr - disse ela, envergonhada. - O senhor tá fazeno pôco de mim, só por causa di quê eu uso calcinha feita de estopa?
- Desculpe, senhorita! Só achei graça os dizeres: 'Ração para Pinto'."

(4) Sabe aquelas calcinhas diminutas, estilo Ana Maria ou Kátia Flávia (cf. Fausto Fawcett)?

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Deforma tributária

Deixa eu ver se entendi: redução progressiva da contribuição patronal para a previdência social de 20% para 14%, até 2011. Redução essa que vai acontececer obrigatoriamente, com ou sem lei para regulamentá-la. Não, não entendi mal: o trabalhador tá tendo o seu retirado, e das duas uma: ou tira mais do próprio bolso para manter a aposentadoria ou apela para um plano previdenciário privado (para aqueles mais abastados).

Tenho minhas dúvidas sobre essa reforma. Vão abaixar a contribuição patronal, como já tentaram a liquidação da CLT e - se não falha a memória - corte do 13º. Isso porque ainda é um projeto de lei. E se for aprovado?

Um cara na comunidade da UFRN no Orkut alegou que isso permitiria às empresas mais incentivos fiscais e, conseqüentemente, maior abertura de postos de trabalho. Mas, se se tem que reduzir a carga tributária sobre elas - e sobre o resto da população -, três pontos: 1) por quê o trabalhador? 2) por que não outros impostos? 3) por menos impostos que haja, há ainda o desvio deles, e não é pouco tutu indo pelo ralo. Já um outro defende a proporcionalidade do pagamento: quem lucra mais, paga mais. Daqui que isso ocorra, ainda vai ter muito patrão chiando e muito congressista bolando artimanhas desse gênero...

P.S.: não tem nada a ver com socialismo. Não preciso ser socialista para ser contra uma absurdade dessas. O motivo é muito simples: por que é que a corda tem que arrebentar do lado mais fraco? De resto, os patrões socialistas não melhoraram bastante a condição de seus trabalhadores, antes os afundaram num pântano mais movediço, já que nem mesmo tinham direito à greve.
P.S.S.: as informações - ainda que resumidas - sobre o PL foram extraídas daqui: http://br.noticias.yahoo.com/s/02112008/25/politica-projeto-corta-contribui-patronal-partir.html

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Para além da natureza e da cultura


Este poderia ser um outro título para O Enigma de Kaspar Hauser. Ora, o que houve com ele não foi muito diverso do que ocorre com o resto das pessoas. Não pela privação absurda que sofreu – 16 anos trancafiado e sem contato com o mundo a sua volta – mas por representar um esforço em superar a dicotomia natureza/cultura, bastante valorizada no contexto europeu.

O que é o ser humano? O que nos torna humanos? Há 200 anos existe tal separação: por um lado, aqueles que defendem que a natureza, a biologia, os genes etc. determinam e/ou condicionam a construção de tal adjetivo; por outro lado, o conjunto de profissionais das ciências humanas opta por apostar na cultura como o ponto de partida para a experiência não tão fácil de se constituir um ser humano. E então, quem está certo sobre a habilidade dos quenianos de vencer em corridas de fundo pelo globo afora? Quem tem razão sobre a habilidade dos mongóis em tirar duas notas simultâneas da garganta? Quem tem razão a respeito do debiloidismo cada vez crescente em nossa época?

Penso que, se continuarmos nesse dualismo, pouco progresso será feito. Natureza e cultura são esferas diferentes, claro; mas para que opô-las? Uma forma de superar essa antinomia é adotar a idéia de que nós, seres humanos, somos por natureza dotados de capacidade cultural, que a seu turno nos permite debater mais acerca de nossa natureza, e assim até o infinito. Alguém pode objetar, evidentemente, que isso empobrece o debate. Eu vou na via contrária: é exatamente a recusa em decidir por uma dessas dimensões que poderemos apreciá-las melhor, esforçando-nos em evitar comentários pífios como o de uma jovem sobre Kaspar: “um verdadeiro filho da natureza”. Aarrgh!

Não, Kaspar Hauser não é um filho da natureza. Nem um filho da cultura. O “não” aqui significa “não apenas”; nec natura nec cultura – Kaspar Hauser é uma simbiose desesperada e teimosa de ambas. Foi com um atraso de 16 anos que ele pôde ensaiar uma compreensão maior de seus pares, o que certamente não foi confortável, já que ele chegou a preferir sua casa à festa oferecida pelo conde Stanhope. Mesmo assim, com o pouco de cultura que respirou, conseguiu atentar um pouco para a mesquinhez de seus pares, que insistiam em manter essa dicotomia (e que prolongamos até hoje); e, após sua morte, foi a vez de eles entenderem um pouco melhor a dificuldade desse homem: analisando o cerebelo dilatado e o cérebro degenerado, é provável que eles hajam chegado à conclusão de que a natureza do homem que tinha dificuldades em absorver a cultura de sua época e lugar foi, na verdade, tolhida pela brutalidade de um pai perverso e por essa cultura inconseqüente.

P.S.: Para quem tem um pouco mais de curiosidade sobre o personagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Kaspar_Hauser

domingo, 5 de outubro de 2008

Parque das Tramóias: visite Natal


O resultado saiu alguns minutos atrás. A eleição municipal aqui em Natal acabou no primeiro turno. No começo da apuração, a percentagem já estava apertada; Micarla beirava os 50% direto, e Fátima Bezerra mal subia nos pontos. Aí o que eu e milhares de eleitores e eleitoras temíamos aconteceu, e não sabemos como será a coisa nos próximos quatro anos.

Quatro anos atrás, ela era vice do atual prefeito, Carlos Eduardo. Mas ela abdicou da cadeira de vice por pressões dentro da Prefeitura (isto é, ficou de escanteio), deixando pra entrar na Assembléia Legislativa, conseguindo ser a mais votada aqui na capital. No ano passado, entretanto, rolou a Operação Impacto expondo a podridão do poder instituído: 14 vereadores e alguns funcionários acusados de corrupção passiva - suborno - com uma empresa de construções local. O que seria feito? Muito simples: a segunda maior área de preservação ambiental em espaço urbano no Brasil - o Parque das Dunas - viraria um canteiro de obras com o passar dos anos; os prédios e casas e condomínios fechados tomando o lugar das dunas e lençóis freáticos, além de tornar a cidade um forno enorme, diminuindo a ventilação e criando ilhas de calor. E não é que a candidata vencedora teve uma conversa 'suspeita' ao telefone com um dos vereadores denunciados? (1)

A galera que votou nela (e noutros candidatos) objeta que eleitores como eu estão fazendo uma bravata exagerada, e que Fátima foi incoerente a respeito do acórdão com Vilma e Garibaldi. E o que ela faz, pelo amor de Deus? Um conhecido meu disse que ela tem projetos sociais(não lembro onde); mas como é que uma coisa assim não é veiculada? Agora bem, baseado nas circunstâncias atuais duvido muito da capacidade dela de gerir a prefeitura com um pouco de vergonha na cara. Gostaria muito de acreditar que ela pode exercer um mandato decente, mas prefiro deixar meu ceticismo ligado.

(1) http://rapidshare.de/files/40570609/Dialogo_de_Micarla_e_Julio_Protassio.MP3.html

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Eleições: de Natal a Guarabira

Guarabira é uma pequena cidade do agreste paraibano. Viajei este fim de semana lá pra ver uma garota e saber que história é essa de "Capital dos OVNIs". O passeio foi ótimo, demos um pulo no Memorial Frei Damião, que apesar de frio (sou friorento assumido) tem uma vista ótima do entorno da cidade. Me chamou a atenção também a enorme quantidade de gente na feira-livre do sábado: fui informado de que o lugar é assim também durante a semana - especialmente nestas semanas que antecedem o 5 de outubro deste ano.

Não pude deixar de ficar surpreso. Há todo um pathos eleitoresco na cidade, marcado por uma semiótica bem demarcada: vermelho para o PMDB, azul para o PSDB, e por aí vai. Cada candidato, partido, figurão político convoca a seu redor uma quantidade régia de simpatizantes, maior e melhor (?!) que aquele comício de Jessier Quirino. (1) Minha amiga não constitui exceção; quando passeamos até o Monumento do Novo Milênio, ela ficou aperreada com a carreata da prefeita atual - que tenta reeleição -, pedindo que esperássemos a mundiça ir embora para voltarmos.

Voltando a Natal, o que mais leio no Orkut nas discussões envolvendo política eleitoral é a Operação Impacto (2): vereadores e funcionários subornados por uma construtora local para liberar geral aqui no Parque das Dunas, levando o que resta do equilíbrio ambiental e vergonha na cara. Mais da metade dos vereadores acusados se encontra nos primeiros lugares da preferência dos natalenses eleitores, o que me deixa bastante preocupado; sem contar que vários deles estão coligados com o PT de Fátima Bezerra, que gostaria de ver na prefeitura daqui ano que vem. Quer dizer, a coisa anda tão pra lá de Bagdá que tem nego apostando em Thoreau, votando nulo.

Pois bem: eu espantado com o pathos de Guarabira. Ela besta com a falta de envolvimento em Natal. No entanto, prefiro tentar dosar um pouco as coisas, ainda mais quando ela disse que a candidata dela fez e aconteceu quando era prefeita de lá. Claro que eu teria que passar algum tempo por lá e avaliar a situação; mas mesmo que tivesse a comprovação do que minha amiga anunciava, não poderia me deixar me levar muito por esse entusiasmo. Por isso que já estou pensando no que escrever pra XVIII Semana de Filosofia daqui da UFRN, tentando juntar um pouco do individualismo instituidor de Castoriadis com o anarquismo individualista de Thoreau. Estou mais para o primeiro, mas acabo com um trecho da Desobediência Civil: "Desejo primeiro não a ausência do governo, mas imediatamente um governo melhor. Que cada homem faça saber que tipo de governo lhe diria respeito, e este será um passo em vistas de obtê-lo" (3).

(1) "Pra se fazer um comício
Em tempo de eleição
Não carece de arrodei
Nem dinheiro muito não
Basta um F-4000
Ou qualquer mei caminhão
Entalado em beco estreito
E um bandeirado má feito
Cruzando em dez posição."

Aqui, na íntegra.

(2) Nome aos bois aqui. E o pedido de prisão foi feito.

(3) Tá, eu sei, a tradução foi livresca. Vai o trecho no original: "I ask for, not at once no government, but at once a better government. Let every man make known what kind of government would command his respect, and that will be one step toward obtaining it."

sábado, 9 de agosto de 2008

Faturando com a birita (1)

Ora, fuço o Orkut e vejo uma notícia interessante: acréscimo de 30% nas alíquotas das bebidas alcóolicas no Brasil, exceto a cerveja (2). Refrigerantes vão sofrer aumento também, mas isso é outra história.

Num sábado pela manhã (09 de agosto último), num curso de extensão de filosofia na Livraria Paulus, a bola da vez foram as drogas. Por que o ser humano usa elas? Qual o impacto delas na vida contemporânea, particularmente nas relações de poder, tão importantes quanto perversas?

Obviamente, o uso não é nada novo; chás de cogumelo, ayahuasca, peyotl e um cachimbinho fazem parte do cotidiano religioso ainda hoje, e em vários pontos do planeta. Abrir a mente mais rápido e entrar em sintonia com algo mais, e trazer algo de bom pra vida: essa era a proposta. Cada vez mais veloz as mentes (e bocas, e braços, e outros orifícios do corpo) se abrem hoje, e sempre algo mais pra sintonizar; mas que é que traz de bom? Ou melhor, é tão melhor que se fosse sem ela? Me refiro a qualquer coisa: a paquera que não decola, o poema que não mela o papel, a música surda no torpor criativo...

Deixem-me ser bastante direto e veemente quanto ao tópico da bebida (e do tabaco, do THC, do LSD, do que o engenho humano possa inventar): neste terceiro milênio, quanto mais cedo nos livrarmos deles, tanto ótimo será. Há outras vias de se chegar aos mesmos objetivos, sejam eles quais forem (3). Supondo que o leitor não cometa grandes exageros e queira viver um pouco mais que a média (mesmo que seja pra ver a ineficácia desta postagem), examino agora alguns motivos para não consumir drogas:

  1. Não vai ser para sempre que o corpo vai reagir legal a elas, seja numa pista de atletismo ou no quarto de motel;
  2. Não vai ser para sempre que As Portas da Percepção vão sair do punho de um Huxley - aliás, Hemingway queimou os neurônios de tanto álcool, e Raul Seixas poderia ter vivido um pouco mais e cantado mais se se livrasse dele; por pouco algo semelhante não ocorre a Ray Charles, que largou a heroína;
  3. Dinheiro não cai do céu, por isso não vale a pena gastar 200 contos com um grama de farinha, e até agora o investimento em clínicas de recuperação não tem sido de grande ajuda - aliás, de ropinol em ropinol os internos ficam mais atolados ainda na desgraça. Isso é particularmente verdadeiro pra hospitais psiquiátricos (4);
  4. Pode ser que, eventualmente, o barato compense defeitos como timidez ou burrice. Numa rave, entretanto, basta uma balinha a mais pra nego morrer mais convulsivo que um epiléptico, enquanto os demais riem de sua tragédia;
  5. Não, eu não quero tornar realidade certos ditos populares, como aconteceu um tempo atrás no Distrito Federal (5)...
Uma última coisa: assim que eu saí duma conferência sobre Demócrito, encontro um bicho do curso de filosofia caído perto da porta do auditório de filosofia aqui da UFRN. E então, todo aquele papo do pré-socrático sobre a justa medida - encontrando ecos na autarkheia de Epicuro, o domínio de si mesmo -, que justificaria até um consumo moderado dessas coisas, achava franco oposto naquele homem de roupa surrada, dreadlocks e uma garrafa com cachaça, estirado no chão... Quem fatura com birita é o dono da Pitu, mas eu é que não vou colaborar com isso!

(1) Uma deixa pra falar de outras coisas.
(2) Por quê? Porque é sagrada?
(3) Hitler financiou uma pesquisa contra o câncer e organizou uma campanha para maximizar a potência do Reich, proibindo consumo de cigarro e estimulando os soldados a beber água mineral. Embora a abstinência não tenha qualquer relação estrita com a sanidade mental, não vejo porque não defendê-la, despotencializando outras sandices humanas.
(4) Foi o que aconteceu com Austregésilo Carrano, que teve sua trajetória narrada no livro Canto dos Malditos, adaptado para o cinema como Bicho de Sete Cabeças.
(5) Tipo assim:

Baú de traças