De manhã, o telefone toca. Acordo, mas permaneço na cama esperando que alguém atendesse. Era pra mim.
- Lázaro, me acompanha até o DOL? É porque ouvi falar que anda tendo assaltos por lá...
Cansado e puto por ter aceito o favor, desci até lá. Achei que era pra fazer (mal) as vezes de guarda-costas - logo eu, que não me engalfinho com ninguém faz cinco anos. Mas dei o desconto: se lá em Mãe Luiza as coisas mudaram durante os cinco meses que passei no Rio, é capaz que haja ocorrido o mesmo pelos arredores do Departamento de Oceanografia e Limnologia da UFRN, próximo ao bairro. De fato, a chapa em Mãe Luiza esquentou legal; enquanto eu assistia a TV ontem à noite , rolou um tiroteio. Eram onze horas ou meia-noite, não lembro; meu irmão abria a janela para curiar, e logo soube que um jovem que morava perto havia sido assassinado.
E não é que, de manhã, voltando em casa pra pegar a mochila e me picar pra universidade, encontro o carro de uma emissora local em frente à moradia do falecido? Gelei na mesma hora. Mais à frente, na esquina, vejo uma aglomeração de curiosos e um homem explicando ao repórter o que houve na noite anterior, apontando os buracos de tiros em sua casa. Lembrei de Jeremias e Mickey Knox, e do jornalismo policial dos últimos anos (como se sensacionalismo fosse algo recente!): dá sangue, mas também muito dinheiro pros empresários e um prazer voyeurístico indescritível pra quem gosta.
Chegando à UFRN, vou a um evento organizado pelo Departamento de Artes. O assunto da conferência? Literatura de cordel e cinema, com foco na representação da figura do cangaceiro. Ela se apoiou no imaginário dominante naquela época - fins do século XIX até a década de 60 do século passado, se não me engano -, sem se referir ao desenrolar histórico dos fatos. E o que vemos? Um Lampião meio sanguinário, meio brabo, meio carinhoso - numa palavra, estilizado. Claro que, durante o trabalho, o conferencista confrontou esses produtos cinematográficos e literários com depoimentos de pessoas que viveram próximas ao rei do sertão; porém, o que ainda prepondera no inventário popular, mesmo entre os nordestinos, é a imagem de um homem que faz oscilar entre a admiração e o temor.
No fim, tenho que concordar com um filósofo e sociólogo bastante cínico e apocalíptico, Baudrillard: a Guerra do Golfo não aconteceu. Mas quem se importa? O assalto a minha amiga lá no DOL não aconteceu; mas, diante dos assaltos já povoando a psique dos estudantes de biologia, quem se importa? O jovem lá no bairro também foi assassinado; mas será que os espectadores vão se importar em apurar os fatos e cobrar humanidade dos jornalistas que, freqüentemente, importunam famílias inteiras? Lampião deixou seu nome na história contra (?) os desmandos do coronelismo no Nordeste brasileiro, mas quem vai pesquisar sobre o cara, pra deixar de nostalgia amiúde exagerada?
É dose. Tenho que ir correndo contar à mãe de minha amiga que, apesar dos pesares, Natal ainda é uma das cidades mais tranqüilas do Nordeste (ou, pelo menos, uma das mais perigosas). Tenho que dizer pra ela o seguinte: se o bairro fosse assim tão perigoso, não haveria três motéis no começo da rua João XXIII, lá perto da praia e (dois deles) ao lado de uma escola primária. Além disso, preciso contar pra ela que tem muito urubu crescendo o olho pra cima de lá, doido pra tornar o local mais um bairro de elite, uma vez que é próximo da praia, do Centro, mercados, lojas e o escambal a sete. Preciso dizer ainda que, se ela quer realmente saber o que é uma cidade perigosa, que vá ao Rio de Janeiro (onde passei cinco meses estudando) e a Recife, mas que tenha consciência da espetacularização hedionda nos noticiários fedendo a molho pardo. Em tempo: o título é uma brincadeira de mau gosto com um espetáculo que acontece todos os anos em Mossoró, para relembrar a passagem de Lampião e seu bando pela cidade. Ontem à noite rolou um bangue-bangue lá pertinho de casa. Mas quem se importa?
- Lázaro, me acompanha até o DOL? É porque ouvi falar que anda tendo assaltos por lá...
Cansado e puto por ter aceito o favor, desci até lá. Achei que era pra fazer (mal) as vezes de guarda-costas - logo eu, que não me engalfinho com ninguém faz cinco anos. Mas dei o desconto: se lá em Mãe Luiza as coisas mudaram durante os cinco meses que passei no Rio, é capaz que haja ocorrido o mesmo pelos arredores do Departamento de Oceanografia e Limnologia da UFRN, próximo ao bairro. De fato, a chapa em Mãe Luiza esquentou legal; enquanto eu assistia a TV ontem à noite , rolou um tiroteio. Eram onze horas ou meia-noite, não lembro; meu irmão abria a janela para curiar, e logo soube que um jovem que morava perto havia sido assassinado.
E não é que, de manhã, voltando em casa pra pegar a mochila e me picar pra universidade, encontro o carro de uma emissora local em frente à moradia do falecido? Gelei na mesma hora. Mais à frente, na esquina, vejo uma aglomeração de curiosos e um homem explicando ao repórter o que houve na noite anterior, apontando os buracos de tiros em sua casa. Lembrei de Jeremias e Mickey Knox, e do jornalismo policial dos últimos anos (como se sensacionalismo fosse algo recente!): dá sangue, mas também muito dinheiro pros empresários e um prazer voyeurístico indescritível pra quem gosta.
Chegando à UFRN, vou a um evento organizado pelo Departamento de Artes. O assunto da conferência? Literatura de cordel e cinema, com foco na representação da figura do cangaceiro. Ela se apoiou no imaginário dominante naquela época - fins do século XIX até a década de 60 do século passado, se não me engano -, sem se referir ao desenrolar histórico dos fatos. E o que vemos? Um Lampião meio sanguinário, meio brabo, meio carinhoso - numa palavra, estilizado. Claro que, durante o trabalho, o conferencista confrontou esses produtos cinematográficos e literários com depoimentos de pessoas que viveram próximas ao rei do sertão; porém, o que ainda prepondera no inventário popular, mesmo entre os nordestinos, é a imagem de um homem que faz oscilar entre a admiração e o temor.
No fim, tenho que concordar com um filósofo e sociólogo bastante cínico e apocalíptico, Baudrillard: a Guerra do Golfo não aconteceu. Mas quem se importa? O assalto a minha amiga lá no DOL não aconteceu; mas, diante dos assaltos já povoando a psique dos estudantes de biologia, quem se importa? O jovem lá no bairro também foi assassinado; mas será que os espectadores vão se importar em apurar os fatos e cobrar humanidade dos jornalistas que, freqüentemente, importunam famílias inteiras? Lampião deixou seu nome na história contra (?) os desmandos do coronelismo no Nordeste brasileiro, mas quem vai pesquisar sobre o cara, pra deixar de nostalgia amiúde exagerada?
É dose. Tenho que ir correndo contar à mãe de minha amiga que, apesar dos pesares, Natal ainda é uma das cidades mais tranqüilas do Nordeste (ou, pelo menos, uma das mais perigosas). Tenho que dizer pra ela o seguinte: se o bairro fosse assim tão perigoso, não haveria três motéis no começo da rua João XXIII, lá perto da praia e (dois deles) ao lado de uma escola primária. Além disso, preciso contar pra ela que tem muito urubu crescendo o olho pra cima de lá, doido pra tornar o local mais um bairro de elite, uma vez que é próximo da praia, do Centro, mercados, lojas e o escambal a sete. Preciso dizer ainda que, se ela quer realmente saber o que é uma cidade perigosa, que vá ao Rio de Janeiro (onde passei cinco meses estudando) e a Recife, mas que tenha consciência da espetacularização hedionda nos noticiários fedendo a molho pardo. Em tempo: o título é uma brincadeira de mau gosto com um espetáculo que acontece todos os anos em Mossoró, para relembrar a passagem de Lampião e seu bando pela cidade. Ontem à noite rolou um bangue-bangue lá pertinho de casa. Mas quem se importa?