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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

As merdas que a gente posta

(Advertência: no meio da postagem tem links pra algumas imagens de sandice. Se tem a curiosidade muita e o estômago pouco,  procure outra coisa pra passar o tempo.)

I

Você nunca passou por um momento na vida com falta de juízo? Que bom, porque de vez em quando isso acontece comigo. Navegando no FB, vejo uma imagem bizarra, uma foto tensa de algo seboso. O que é que eu faço? Compartilho com meus contatos! Mas por quê? Sei lá, me deu vontade de compartilhar e pronto! Não tardaram a aparecer os comentários. O primeiro deles foi no mesmo espírito que o meu quando vi a imagem, um "eita porra" sem grandes preocupações. Logo depois, um dos comentários de uma menina que não "acreditava que tinha visto essa merda". Tá, até aí nada de mais. O terceiro, no entanto, apitou visivelmente horrorizado, algo do tipo "Lázaro, eu não acredito que você postou isso! Vou te excluir agora do Facebook!". Outros três comentários no mesmo espírito. Três me excluíram, um provavelmente me bloqueou (não consigo acessar o perfil dele a partir de minha conta). Raiva. Muita raiva. Mas, com a brevíssima repercussão, deletei a foto instantaneamente.  Em seguida, porém, dei o toque pra quem quisesse ver:

"Galera, vamos combinar uma coisa: da próxima vez que eu postar algo nojento no FB, vocês não são obrigados a ver se não quiserem. Mas, sinceramente, se vocês acha que isso é pretexto pra me excluírem de suas contas, vão em frente. Não tenho tempo pra moralismo barato."

Um amigo meu chegou a me dar apoio moral, sugerindo que eu mandasse essa galera se foder - e olhe que eu quase fazia isso, mas preferi ficar na minha. Uma amiga, por outro lado, me fez algumas muitas ponderações, o que me fez rever um pouco da raiva que tive da situação. Na hora, concordei com tudo o que ela disse, e ainda continuo a concordar. Contudo, algo ainda pairava em meus miolos, sentindo que havia algo no discurso dela que não captava meu estado de espírito, ou minha sensação diante do que ocorreu.

Antes de mais nada, a foto. Pensei em colocá-la incorporada na postagem, mas eu deixo que você tenha a curiosidade de clicar, se horrorizar ou achar graça.

Minha amiga afirmou que, diante das expectativas que as pessoas geram a meu respeito (segundo ela, por ser "tão inteligente"), ninguém esperaria que eu postasse a foto. Repliquei, baseado em Dostoiévski ("Memórias do Subsolo"), que não há contradição entre ser inteligente e cometer alguma besteira. Ela perguntou qual seria o limite da contradição, não cheguei a responder diretamente, mas me queixei que a atitude dessas pessoas foi exagerada; entretanto, como compartilhei sem nenhum motivo aparente, ela disse que havia contradição de minha parte, por não aceitar que elas agissem de modo exagerado, tal como agi. Perguntou ainda por minha tolerância, já que eu tinha dito que havia visto coisas ainda piores que me haviam mostrado, sem por isso recriminá-los e cortá-los de meu convívio na internet. Por que não haveria de tolerar a decisão de ser excluído? Na hora, afirmei que se tratava de estar com raiva, mas acredito agora que uma coisa não exclui necessariamente a outra. Em todo caso, não fui nem um pouco feliz em socializar uma foto de nível coprofílico e compreendo a repulsa decorrente disso. Mas não é tão simples resolver o assunto dessa forma...

II


Releia lá em cima a mensagem que postei no FB. Vou comentá-la sentença por sentença:

"Galera, vamos combinar uma coisa: da próxima vez que eu postar algo nojento no FB, vocês não são obrigados a ver se não quiserem." Se fosse tão fácil ignorar o que se vê, certamente não haveria problema algum (ou melhor, os problemas seriam bem menores). É claro que eu queria que vissem, senão não teria postado. Uma garota, comentando essa postagem no FB, me fez atentar para esse fato. De resto, há um recurso no Facebook que me faculta escolher quem pode ver o que posto ou deixa de postar, mas por falta do hábito não me lembrei de usar a ferramenta. Fica de lição. Uma amiga minha, por outro lado, pediu simplesmente: "defina nojento" (sic). Voltarei a este problema mais adiante.

"Mas, sinceramente, se vocês acham que isso é pretexto pra me excluírem de suas contas, vão em frente." Continuo pensando do mesmo jeito, especialmente depois de esfriar a cabeça e pensar melhor no que houve. Assim como há o recurso que permite selecionar o público-alvo de tal ou qual postagem, também há o recurso de apagar o item no histórico de postagens do usuário (ou, no caso de quem vê, apagar a postagem em questão). Este é ainda mais fácil de utilizar. Ainda assim, se não se quer ver as postagens de determinado usuário, basta parar de "assiná-lo". Simples.

"Não tenho tempo pra moralismo barato". E tanto menos quanto mais aparecer esse tipo de atitude. É bom sublinhar que não houve intenção, de minha parte, em tachar as pessoas que me excluíram de "moralistas baratos", mas a causa por trás do que fizeram certamente o é. E moralismo fétido.

III

Sejamos honestos para com nós mesmos e nos perguntemos (como perguntei no início deste texto) se não passamos por um momento na vida com falta de juízo.Naturalmente, espero que a resposta, em 100% das possibilidades, seja "sim"; não aceito um "não" como resposta, pois o que denomino "juízo" pode assumir uma definição ampla - capacidade de discernir em questões práticas e teóricas na vida, qualquer que seja o teor delas - ou estrita - a mesma que a ampla, mas adquirida ao longo de uma existência atribuladíssima ao infinito. Como disse Millôr Fernandes, o homem é exatamente o contrário do If, de Rudyard Kipling. Ao contrário do humorista, peço que abra uma aba no navegador de sua preferência, procure o poema e o leia depois que finalizar este texto.

Pois bem: visto que, em algum momento de nossas vidas, podemos ter perdido o juízo. Uma única vez - uma mácula enorme em sua memória! Fora de brincadeira, não é minha intenção comparar a qualidade das circunstâncias em que perdi o juízo ou a quantidade delas. Porém, acredito em uma coisa: a julgar pelas afinidades de cada um, e pelas circunstâncias em que se meta o pé na jaca, é plausível (o que não é o mesmo que razoável) deixar o ocorrido pra lá. Não no sentido de desculpar. Não quero e não vou pedir desculpas a ninguém, e também não exijo que me dêem desculpas - mas no sentido de ligar o foda-se e partir pra outra. 

Ora, continuo sustentando que, se fiz bem em ter apagado a foto de meu histórico de postagens antes que o nível de reclamações subisse, não acredito absolutamente que ser excluído tenha sido uma boa idéia. Mas você pode estar se perguntando: se se trata de ligar o foda-se, por que então estou escrevendo? Ligar o foda-se não quer dizer necessariamente esquecer: indica essencialmente aceitar as coisas que acontecem do jeito como acontecem, e não soltar um "não acredito!" sonso e pavoroso. É claro que, se posso achar imbecil a atitude deles, também a minha o foi. Melhor seria se melhor fosse, não é verdade? Mas a verdade é que não foi, e isso suscita um problema.

IV

Defina "nojento": foi o que pediu minha amiga. Eu também pensei na mesma coisa. Nojento: aquilo que causa nojo, repulsa, asco, aversão, ânsia de vômito, rejeição instintiva. Concordo com a maior parte de vocês que a foto a que me referi ao longo deste texto é nojenta, mas qual é o limite? Cada um estabelece para si o que lhe atrai ou repele, não é verdade? Mas deixemos estas questões de lado (responda nos comentários se quiser) e compare aquela foto com alguns vídeos: uma criança chinesa atropelada duas vezes sem ter socorro imediato, um guaxinim esfolado pra ter sua pele transformada em roupa e o trecho de uma cirurgia de redesignação de sexo. Não estou pondo em questão a moralidade nestas imagens, apenas o nível de repulsa que podem provocar no espectador (eu mesmo senti arrepios com os três vídeos). Na verdade, há outras coisas que considero ainda mais nojentas, como uma cena de ciúme ou um porre desvairado. O Google está aí pra outras sugestões: acidentes domésticos, cenas de guerra, rotinas de hospitais e assim por diante.

Você acha que vou perguntar o que é mais nojento - se a foto ou algum dos vídeos? Não, não se trata disso. Um outro ponto que minha amiga tocou é que as apreciações estéticas, desde Kant, são uma extensão de nossa moral. Exatamente! Ela foi direto na pereba. É esse sentimento moral que está nas raízes não só do comentário dela, mas das observações que outra amiga fez acerca do ocorrido e dos comentários afetados que soltaram na imagem, quando ela ainda estava disponível. A diferença, porém, é que minhas amigas me dariam o desconto pela merda que postei. Com efeito, não seria tão mais simples pedir que eu apagasse a imagem de meu histórico de postagens?

V

De uns anos pra cá, minha tendência diante de outros seres humanos é a de esperar qualquer coisa deles. Qualquer coisa. O comentário do cara que me excluiu e bloqueou foi taxativo, já que ele supunha que eu, por ser tão sensato, não postaria aquela porcaria. Da sensatez não sei, mas não costumo compartilhar essas coisas com qualquer um. Mas a atitude dele é sintomática: grande parte das pessoas por aí simplesmente se deixa amiúde surpreender com todo tipo de fatos que escape ao que prevejam. O inesperado assusta - e como assusta! E como desperta a incredulidade, como bombardeia uma série de não-acreditos em nossos ouvidos! O ser humano não quer acreditar na própria capacidade de fazer besteira, de cometer erros, de tropeçar e deslizar; que dizer então quando é outro ser humano que desliza?

Minha amiga, aquela com quem conversei, pediu que eu deixasse o assunto de lado e não postasse nada. Disse que ia postar e pronto - e ela dizendo que eu ia cuspir um cuspe bem nojento, daqueles bem ruminados, e que eu queria aparecer, coisa e tal... Então tá, né... Mas escrever foi uma maneira bacana que encontrei de meditar sobre o assunto. Enquanto eu escrevia esta postagem, contudo, vi na TL um tweet que dizia o seguinte: "Eu falo sério quando me interessa. Falo besteira idem. Quer ler sempre a mesma coisa, veio ao lugar errado. Sou humano, mutável, falho".

Quanto ao problema da tolerância e à raiva que senti na hora, como afirmei mais acima: não há necessariamente exclusão entre tais coisas, porque é possível tolerar alguém e não tolerar alguma atitude pontual dela. Não tolerei ser excluído na hora, mas Inês é morta agora. De qualquer modo, o fato é que é muito simples se deixar chocar, julgar alguém e condená-lo por isso, embora nem sempre isso aconteça por motivos moralista(nem eu estou imune a essa fatalidade). Concluo este texto revisando a postagem de minha  queixa no FB para o seguinte:

"Galera, vamos combinar uma coisa: da próxima vez que eu postar algo nojento no FB (tenha eu plena certeza da intenção ou não), se vocês acharem que isso é pretexto pra me excluírem de suas contas, vão em frente e pensem com carinho. Não tenho tempo pra moralismo barato."

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Passando a porra na cara

Quando a gente pensa que putaria só acontece nos dias de hoje, e mantém isso na cabeça, seja fazendo críticas moralistas seja rechaçando o passado, fica mais que óbvio que não sabemos de putaria nenhuma. Não, não me refiro ao Kama Sutra. Também não vou tratar das cartas que Platão mandava pra seus amantes (e isso apesar da fama d' A república). Nem vou mencionar o caso de certas tribos na Índia, que promoviam a iniciação sexual a partir dos sete, oito anos de idade; nem de como isso pode ser aproveitado por Luiz Mott em sua defesa da pedofilia. Leio no UOL que um cirurgião colombiano fez um creme à base de sêmen. A inspiração? Madame Cleópatra, clássica rainha egípcia que só não fez um ménage-à-trois com Marco Antônio e César por falta de oportunidade. No Papiro de Ebers, havia um tratado de medicina cheio de receitas pra tudo quanto fosse coisa. Entre elas, o tratamento que a danada fazia com suco de pica, seguindo o calendário lunar. O criador do creme afirma que o efeito de sua invenção dura 12 horas, com resultados instantâneos.
Pois bem: aí eu fico pensando nos filmes pornôs que assisto, nos bate-papos de que participo, nas coisas que escuto. Graças ao UDR, um dueto mineiro que só faz música pra lá de pan (ssexual, se ainda tiver dúvidas quanto ao significado; o que não dura por muito tempo, após pegar o material deles no Myspace ou YouTube), adiciono uma nova palavra a meu vocabulário: bukkake. Vou procurar no prêt-à-porter do viciado em Internet - Google - e saber que porra (!!) é essa. Além das várias páginas com vídeos e fotos, aparece um artigo da Wikipédia; atribuem a origem da prática aos japoneses, uma mulher havia traído o marido e ele, em repúdio, solta o leite na cara dela. Mas tem gente que acha que isso é lenda urbana, e o bukkake só apareceu nos filmes pornôs a partir dos anos 80 - lá no Japão.
Duvido que seja apenas uma lenda urbana. O trato do ser humano com o sexo, posições, perversões, tudo isso é mais antigo que o próprio ser humano; o diferencial é que, além de ser o único animal que ri ("e rindo mostra o animal que é" - Millôr Fernandes), é político e racional. Em prol de sua racionalidade, faz o que bem entender, e manda a galera às favas; Dostoiévski não perdeu um único tempo argumentando sobre o assunto em sua obra como um todo e nas Memórias do subsolo em particular. Aliás, foi com ele que soube de uma das taras de Cleópatra: enfiar agulhas douradas nos peitos de suas amas e se divertir com os gritos.
E Martín Carrillo não deixou por menos: recuperou o antigo tratado egípcio e meteu as mãos à obra. A indústria pornô, por seu lado, deve contatá-lo para algumas propagandas, além de ser um forte mercado consumidor. Pessoalmente, por mim tanto faz; nos vídeos, a coisa que menos me interessa é ver a estrela tomando banho de gala. Agora, não me farei de rogado em deixar minha querida mais bonita, se assim ela quiser...
P.S.: tá bom que sempre tem putaria. Mas algumas dão um susto da porra (literalmente) por aí:

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Só casando!

Agradável surpresa. Agradável e perturbadora. Numa mostra de cinema na Caixa Cultural aqui no Rio, que estará em cartaz de 19 a 31 de maio, estarão sendo rodados alguns filmes (20 longas e 3 curtas), tendo como tema o erotismo. O recorte histórico é compridinho, indo do fim da década de 10 até a retomada, com Madame Satã entre as seleções. Há também um minicurso organizado pelo curador da mostra, do qual perdi o primeiro dia, só começando a acompanhar a conjuntura do cinema erótico brasileiro a partir da década de 30 até a época das chanchadas.

Isso é o panorama geral. Mas a surpresa mesmo foi de encontrar duas obras de Nelson Rodrigues adaptadas para a película e rever uma delas nessa linguagem (já a havia visto no palco), Toda Nudez Será Castigada, dirigida por Arnaldo Jabor; a outra, Vestido de Noiva, só ouvi falar, ainda não vi nem a encenação. Um viúvo atormentado pela morte da esposa e que prometera a seu filho não se casar com uma outra se vê, de repente, na cama com uma prostituta, graças ao irmão, que teve essa idéia brilhante (1) para livrá-lo dessa neura. A princípio enojado com toda sua moral conservadora, Herculano se vê atraído por Geni, que lhe prega uma peça inspirada por Patrício, seu irmão: Só toca em mim casando, viu?! Só casando! Após decidir contrair o matrimônio com ela, ainda há o problema com Serginho, o filho ensandecido pela promessa do pai em se manter viúvo; esperneia, é estuprado na delegacia após fazer confusão num boteco (e fugirá, ao fim da trama, com ele - o ladrão boliviano), mas arma uma chantagem com Geni: ela se casa com Herculano, mas o trairá com o filho...


Mas, chega de resumos que isso é feio! Nelson Rodrigues, se era mesmo reacionário - desconheço maiores detalhes de sua biografia - pelo menos era pespicaz. Geni, derretida de paixão por Herculano, ao soltar o mantra matrimonial - lembremos, só casando! -, não deixa de jogar com a moral mesquinha do Brasil de então (2). Se é pra segurar o homem amado (!!!), e se o jeito é dançar conforme a música, então que ela saia pelo baile da vida a rodopiar trágica. Porém, nesse mesmo momento ela rompe com o estigma que lhe impõem - mulher de vida fácil, vagabunda, e etecéteras rançosos e sonsos; convida, ou melhor, obriga Herculano a largar seus chiliques anacrônicos e a dar um novo rumo a sua vida. Sua fantasia, no entanto, se vê desmanchada por Serginho, que a chantageia; consumida por essas cenas, e após vê-lo fugir com o ladrão boliviano, corta os pulsos e conta a verdade àquele que atraiu seus anseios de mulher. Da parte das tias de Herculano, eu até entendo: as velhas ficaram para tias mesmo, solteiras e malcomidas; só que ainda especulo qual o motivo da promessa que Serginho obrigou o pai a fazer.
Mais algo a dizer? Bom, com tanto puteiro aqui no Rio é capaz de eu separar uns trinta, quarenta reais e ver que tipo de peripécia me espera...
(1) Brilhante e lúbrica.

(2) O que não ajuda muito.

domingo, 10 de maio de 2009

Terapia primal

Mal acabava de me arrumar para sair e dar uma descarga no stress acumulado durante o dia inteiro, ela chega me perguntando, de supetão e num tom cínico, se vou curtir a boemia. A princípio, o susto: com que maneira esdrúxula essa velha desgraçada quer saber aonde vou ou deixo de ir? Quer dizer, tinha que avançar logo dessa forma (pois não ia aproveitar apenas a boemia, mas a orgia, a pegação braba)? Na qualidade de inquilino, talvez não fosse nada demais eu dizer o que iria fazer, para o caso de alguma eventualidade. Qual eventualidade, meu Deus?! Dois meses e essa sacripanta empurrando sapo atrás de sapo em minha goela, e eu tendo que suportar calado todo o falatório mesquinho e repassado de malícia dessa mulher! Ah, não, hoje não; eu só quero sair e dançar meu forró na Feira de São Cristóvão, chegar de manhãzinha, tomar meu banho e curar a canseira! Mas eis que senhor Hyde franze o cenho, levanta escarninho um dos cantos da boca - agora não lembro qual, de tão enfurecido que estava -, o sangue fervendo da adrenalina concentrada, olha bem fundo nos olhos de sua interlocutora e, não bastando a torrente desabando sobre as cidades do Norte-Nordeste, jorra a sua. Foi mais ou menos assim:
- Que merda de tom de voz você usa pra se dirigir a mim, hem?! A troco de quê você futrica minha vida?! Se eu vou sair por aí, procurando sarna pra me coçar, tá na cara que o problema é de meus vinte e um anos de vontade de botar na cabeça que, a qualquer momento de minha vida, toparei com a mesquinhez de um ser humano putrefato e desbocado como você, Flor de Maria!! Se eu quiser encarar a putaria por aí, não preciso ir a um bairro, um restaurante ou uma rave, dona Flor, só o que há no Centro do Rio são puteiros, com garotas disponíveis para um bola-gato a partir de dez reais, todos os dias um panfleto pára na minha mão, já fui diversas vezes me lambuzar e foi do caralho, era cada xereca rebolando com a porra no meu pau!! (Era um blefe, nunca fui a um puteiro. Mas guardei os panfletos para uma eventualidade.) É isso que você quer?! Ah, é isso, hã?! É como diz o ditado, dona Flor, só um pau bem duro pra manter mulher quieta em casa e cavalo seguro no campo!! Então, é por isso que você lança essa pergunta estúpida? Para sondar a possibilidade de eu arrebentar sua boceta seca da menopausa? Não, dona Flor, não vou a nenhum puteiro nem a orgia ou boemia, vou me divertir porque gastar meus palavrões com uma bruaca feito você não vale a pena, mesmo que você mereça!!!
No instante seguinte, ela me manda fazer as malas e me mudar.
***
Acordo assustado com o sonho. Com que ousadia soltei a língua pra cima dela? Não, ainda não estou em condições para tal. Certo estava o homem do subsolo de Dostoiévski; melindrado com um oficial que esbarrou nele de forma esnobe, o sujeito maquina, silenciosa e meticulosamente, sua vingança, dando a ela um aspecto solene até. Quando menos esperava, vestiu sua calça manchada, casaco, pele de castor alemão, foi ao encontro do oficial, trombou com ele, e pronto: mais uma certeza de que ninguém o constrangeria a se comportar de acordo com não se sabe quais normas hipócritas de convívio (ou leis da natureza, como preferiria o autor russo). Ainda agora aguardo minha vingança...

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Nabokov por um real

Qual não foi minha surpresa, ao cruzar com um sebo e encontrar livros a preço de caneta? Sim, porque tem gente que compra caneta - sem ser necessariamente uma BIC esferográfica - por um real. Pois bem: o que noutro momento não sairia por menos de vinte e cinco reais foi adquirido por mim a um preço tão irrisório que o furto de um exemplar assim tão barato talvez rendesse reportagem em algum programa policial (tipo "Sem Meias Palavras", bem conhecido dos pernambucanos e viciados em YouTube).

Lolita, o romance que adquiri, narra a história de um envolvimento normalmente censurável: Humbert Humbert, um professor de literatura francesa se apaixona sofregamente por uma garota de doze anos - Dolores Haze, Lolita para os íntimos -, que por sua vez se mostra bastante, digamos, madura. Na verdade, ele sempre teve atrações por garotas assim novas, e só com dificuldade mantinha relacionamentos com mulheres adultas. Casou, então, com a mãe da garota apenas para se aproximar melhor da ninfeta, que é como H. H. chama as meninas pubescentes. Talvez nem precisasse; algum tempo depois, a mãe morre atropelada, e o professor, tradutor e poeta fracassado toma a jovem e sai pelos Estados Unidos afora (a paquera começa em algum Estado a oeste).

Como é frágil e tortuoso esse giro! Apesar de sacana, Lolita se mostra, como a maior parte das garotas de sua idade, ridiculamente fútil. A partir daí, Humbert só consegue agradinhos (pra dizer o mínimo) de sua amada com uma série de chantagens, pequenas ou maiores; tem que ir a cinema tal e tal pra ver um filme meio fútil (suspeito que este dado não existe no romance, mas corrigirei assim que relê-lo), suportar sua indiferença ou birra quanto a paisagens naturais e cidades pequenas, além do natural ciúme de outros marmanjos de olho em sua singular beleza. E não é que ela, de alguma forma, acaba se perdendo do "padrasto"? Alguns anos depois, já desenhada pela endocrinologia e com um filho à espera, os dois se reencontram; apesar da aversão a mulheres com peitos e curvas (e boca, e olhos, e tez, e maçã, e... Tá, um belo dum xibiu cabeludo pra parar com a frescuragem), tentou uma reaproximação, sem sucesso; por fim, assassina o parceiro de Lolita de forma tragicômica, saboreando mesmo com um tempero dostoievskiano.
E, pra acabar com o papo furado, venho então com o motivo de minhas divagações. Pedofilia é um troço complicado de se cuidar, ainda mais com duas entidades bastante controversas: a Internet e Luiz Mott (sim, o decano do movimento gay no Brasil também defende a livre expressão do desejo por crianças). Não é à toa que o romance foi vetado na França, sendo publicado alguns anos depois de sua versão em inglês sair nos Estados Unidos. De resto, serve de bom material para estudos literários, psiquiátricos, psicanalíticos e o deleite ambíguo-lascivo-transgressor. Por outro lado, a coisa da pedofilia também remete ao tema da prostituição: pais que mandam as filhas ou meninas abandonadas por aí, que recebem mixaria pra um desconhecido qualquer passar a mão e se lambuzar com elas. Por um real.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Do clitóris ao papanicolau

Ninfomania não tem mesmo hora pra chegar. Conversávamos, eu e meu irmão, qualquer besteira que não lembro nem importa lembrar agora. Conversávamos, ele lavando roupa, eu lavando os pratos, ao som de Titãs. Eu tava gostando da música, repetia ela várias vezes. Então, confabulando comigo mesmo, comecei a fazer um projeto simples de exegese. A base desta postagem é a primeira faixa do CD Tudo ao Mesmo Tempo Agora.

Vejamos, então, o primeiro verso. Parece um mantra, repete solenemente o nome daquele botão carnal, daquele centro vulcânico da genitália externa da mulher:o clitóris. A etimologia sugere o toque lascivo das partes pudendas: nada como um roçar, vaivém frenético e apetitoso, tanto faz se é o dedo, o pênis ou a língua; o toque delicioso faz estremecer e explodir na volúpia localizada, que não tarda a se expandir e ganhar o corpo inteiro de sua dona (1).Tudo isso a despeito de práticas em certas regiões do globo, notadamente entre muçulmanos no Oriente Médio e algumas etnias africanas, que o enxertam todo, levando embora até a vulva, se necessário. Basta um contato, mesmo o mais efêmero e tímido: então a jovem senhora menina experimenta o que quer o que pode essa anatomia.
No entanto, nem todo mundo gosta desse marcador biológico. Não me refiro a workaholics, adeptos do SM, ou àquelas que, por força de dramas pessoais, congelou e estagnou a sensibilidade daquela jóia dourada. Me refiro à Igreja Católica, uma grande responsável pelo tabu da sexualidade em geral e, naturalmente, ele não estava de fora. Em vez do clitóris, friccionemos o genuflexório na hora da missa. Deixemos o prazer carnal de fora, uma vez que existem prazeres mais sublimes e duradouros para além desta vida. Ainda há o confessionário para ajudar a suprimir esses pensamentos pervertidos. Mas pensemos bem: até que ponto um homem que se diz casto pode orientar os (e principalmente as) fiéis a deixar o sexo – e, conseqüentemente, o clitóris – para depois do casamento? O celibato foi um dos piores dogmas instituídos pelo catolicismo, que tolhe e deforma a sexualidade de clérigos por todo a parte. (Estou pondo de fora aqueles que, sem qualquer coerção – ainda menos a religiosa – , passam muito bem sem o sexo; mas esta é uma minoria cada vez mais minoritária.) Não sem razão, o Opus Dei sai por aí à cata de padres pedófilos, abafando os escândalos sexuais tão recorrentes em lugares como os EUA. Ainda nos Estados Unidos, mais precisamente em Los Angeles: ê lugarzinho pra ter figurinhas eclesiásticas reacionárias! Lembro de ter lido um capítulo dum livro de Mike Davis (Cidade de Quartzo – Escavando o Futuro de Los Angeles) apenas sobre elas; entre suas atividades, estava incluso um boicote à campanha contra a AIDS e, se não me engano, incentivando o não-uso da camisinha. Então podemos aumentar a promiscuidade assim de qualquer maneira? Duvido que qualquer fiel devidamente esclarecido e com vida sexual ativa – a despeito das recomendações papais, cardinais etc. – evite pegar um pedaço de borracha pra deixar o gozo mais seguro.

E, então, quando pega no ato, a jovem senhora menina sente o peso avassalador da verborragia histérica e precipitada. Agora, ela é chamada de suja; gritam que ela surja, o corpo e a mente imaculados pelas delícias proibidas. Ninguém nem sabe onde ela terá feito, muito menos se terá feito; no entanto, a simples suspeita do líquido grosso, melando seja lá qual for a parte de sua anatomia, é suficiente para arrumar justificativas estapafúrdias e invasivas da intimidade genital feminina. Aborta! Casa! Vai embora desta casa! (2)

Quando não se contentam com o grito, mandam imediatamente para o ginecologista, saber se o lacre está no lugar. Não é bem para isso que serve o papanicolau, mas o simples fato de poder ser feito já implica no diagnóstico positivo por parte dos pais, tutores, madrinhas etc. Implica, mais ainda, um prolongamento vergonhoso da tortura com a mulher, já que o homem pode muito bem sedá-la e fazer o que lhe vier à cabeça. O que era pra ser um exame de prevenção se torna o coroamento do ataque à mulher: (3) até onde sei, quase nenhuma gosta de dar satisfação de quem pega ou deixa de pegar em seu clitóris, não é mesmo?

(1) Alguém, sem entender essa prolixia falsamente intelectual, apenas diz: ah, o negócio é tocar uma siririca na gata, fazer ela gozar bem muito!
(2) Isso me lembrou – mente suja imunda – um grito de guerra, um slogan sardônico e pouco criativo. Não tenho mais o que acrescentar nesse parágrafo, porque a letra já é eloqüente por demais.
(3) Não sejamos tão precipitados: de repente ela esteja brincando de médico com o pé-de-lã e eu não saiba.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Saia com foto de calcinha

Tô sem fazer nada em casa (1) e, de repente, paro pra assistir o Tudo é possível, apresentado por Eliana na Record. Aí eu vejo cinco boazudas desfilando numa rua, com saias estampadas com calcinhas atrás. Isso mesmo: saia com foto de calcinha. Acompanhando as damas (2), a pergunta soltada pela loura: essa moda pega?

A coisa começou uns tempos atrás, no Japão. No entanto, em vez de impressão na roupa (como no caso das modelos), a estampa é pintada. A mão nipônica é, de fato, meticulosa - reproduz fielmente a bunda da mulher; mas as fotos mostradas só tinham saias com estopa (3). Já as brazucas, ai titia!, ai se a moda pega! Claro que algumas vão optar por estampas de estopa também, mas algumas... Ê torança! (4) E, como não podia deixar de ser, houve consulta popular. Já se esperava a divergência de opiniões entre homens e mulheres, embora a maioria dos marmanjos tenham gostado da idéia. Naturalmente, aquela nuance de machismo: saia com foto só com a mulher dos outros.

Mas o que me chamou mais a atenção foi a proveniênica da vestimenta. Até onde sei, a cultura japonesa tradicional é sóbria até o osso - e isso apesar dos hentais. Cê veja como é a tal da pós-modernidade - muito semelhante ao efeito borboleta, ninguém sabe quais os efeitos dos fenômenos pelo mundo afora. Daqui a pouco vão fazer estampa pra destacar o capô...

P.S.: desculpem a falta de imagens, o Google não colabora...
P.S.S. (acrescentado em 23/11/2008): confiram o primeiro (e, até agora, único) comentário a esta postagem, é elucidativo para o efeito borboleta, isto é, efeito saia-com-foto.

(1) Sou VASP.
(2) Seriam damas de lotação? Ui!
(3) Fazendo a verificação idiomática no Google (só pra checar se outros lugares do Brasil usam estopa como no potiguês - português do RN -, isto é, uma calcinha enorme), não pude deixar de incluir esta piada:

"A garota veio do interior para a cidade grande para a sua primeira consulta ao ginecologista.
Quando o médico decidiu examiná-la e pediu que levantasse a saia, não conteve o riso.
- Seu dotôr - disse ela, envergonhada. - O senhor tá fazeno pôco de mim, só por causa di quê eu uso calcinha feita de estopa?
- Desculpe, senhorita! Só achei graça os dizeres: 'Ração para Pinto'."

(4) Sabe aquelas calcinhas diminutas, estilo Ana Maria ou Kátia Flávia (cf. Fausto Fawcett)?

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Estudantes de Letras: o que (não) fazem?

Após umas discussões no fórum da comunidade do ENEL 2009 no Orkut, eu pensei: o que é que os estudantes de Letras fazem? Participando do tópico, eu até arrisquei umas respostas estúpidas... Mas, de repente (1), fiquei mastigando comigo mesmo e cheguei a um estudo teórico-prático - que levou, de resto, algumas horas de esforço quase nulo, e que arrisco publicar aqui.

O que (não) fazem os estudantes de Letras? Minha pergunta partiu exatamente das experiências teórico-práticas que tive antes de meu estudo (2). A gota d'água foi o comentário duma garota: "as pessoas de letras não fazem sexo". Como assim, não fazem sexo? E eu tratei de investigar o caso. Dividi os achados em duas seções: o que os (3) estudantes fazem e o que não fazem de jeito maneira. Espero dar uma contribuição significativa na bendita arte da falta do que fazer. Sugestões e críticas são bem-vindas.

1. O que fazem os estudantes de Letras?

Se a observação pressupõe a teoria, basicamente o que um estudante de Letras faz é ler e reler - embora não sempre, dependendo do que gostar ou não - tratados de lingüística e literatura. A partir daí, é exigido que o aluno parta para experiências práticas, a fim de comprovar se absorveu de fato o conteúdo ministrado. Pode continuar os estudos no mestrado e doutorado, e se for audaz poderá enriquecer a teoria e repetir o ciclo.

A parte lingüística, em geral, trata do uso corriqueiro da língua. Não tão corriqueiro, sei lá, mas não nos preocupemos com as definições do que seria "língua", "corriqueiro" e "uso", já que isso é aparar água com a peneira. Basicamente, noções de como, quando,onde e com quem usar a língua, variações lingüísticas, a começar pela própria língua. Isso parece redundante, mas a repetição nesse processo é fundamental, a fim de que o aluno tanto repasse essas informações adiante quanto as empregue na vida pessoal, evitando problemas mais ou menos sérios de comunicação. Algumas correntes: funcionalismo - ideal para quem tem interesse em empregados de repartições públicas; estruturalismo - para aqueles que desejam sentir a estrutura da coisa; formalismo - vão mais atrás de uma Maitê Proença ou um Antônio Fagundes, embora há quem prefira um Tião Macalé ou uma Brigitte Bardot (a atual, bem entendido); gerativismo - para aqueles que têm uma criatividade latente com a linguagem... De forma geral, a lingüística tem, à primeira vista, um contato maior com a prática, uma vez que são feitas pesquisas de campo a fim de corroborar ou corrigir a teoria; entre os instrumentos de trabalhos se incluem gravadores de som e filmadoras.

Já a literatura, em sua prática, precisa de um pouco menos; caneta e papel bastam. Obviamente, isso varia no tempo e no espaço - canetas-tinteiro, computador, pena, pergaminho, papel de pão (4)... Quanto à teoria, bom, a teoria é um tanto quanto variada, já que trabalha com produções literárias variadas que, por sua vez, têm motivos variados - o que não é ruim, antes oferece ao estudante de Letras uma gama vasta, estonteante mesmo, de perspectivas profissionais (5). A depender do gosto (6), podemos ler: Vatsyayana, que criou um tratado rico e ilustrado sobre os prazeres da vinda, ensinando inclusive como chupar a manga; a Teogonia e a Ilíada, com episódios da vida privada dos deuses, especialmente do modo como Zeus se metamorfoseava em cisne, touro ou chuva; Teresa filósofa, que já é, por assim dizer, auto-explicativo no título... Na contemporaneidade, Hilda Hilst narra as descobertas de uma garota de oito anos (7); J. G. Ballard descreveu experiências vertiginosas em atropelos automotivos (8); e Gibson fez questão de desmitificar o fato de que hackers vivem direto na frente de um computador (9). Sem mencionar a sabedoria popular, que manifesta seus ensinamentos em versos de boa (!!!) qualidade (10). Há ainda a divisão por escola literária: romantismo - para aqueles particularmente emotivos e anti-burgueses; realismo-naturalismo - que desejam oferecer um tratamento científico à coisa, descrevendo-a do modo como as pessoas realmente agem; simbolismo - procuram deixá-la um pouco colorida e sutil; arcadismo - ideal para quem gosta do mato, cachoeiras e charnecas; modernismo - o jeitinho brasileiro de arrumar uma identidade pra nossa literatura...

A pesquisa ainda se encontra em fase inicial, de forma que algumas dúvidas podem - e devem (senão perde a graça!) - permanecer. Mas falta responder à outra pergunta:

2. O que não fazem os estudantes de Letras?

Sexo. Nem em diferentes posições. Não furunfam. Não trocam fluidos corporais. Nada de material erótico. Não trepam e não fodem. Ao que parece, como uma garota cearense disse: é tudo literatura (11).

(1) É assim que a estupidez vem.

(2) Como diria Karl Popper: a observação pressupõe a teoria.

(3) Especialmente AS estudantes. Mas não permitamos que minha preferência afetiva atrapalhe.

(4) E nas condições impostas ao literato; taí Sade pra não me deixar mentir.

(5) Há por aí uma blogueira muito famosa, que ganhou uma grana braba após publicar contando como acabar com um relacionamento conjugal. Dizem que ela sabe surfar que é uma beleza.

(6) Tudo o que podemos fazer com ele é lamentar.

(7) O Caderno Rosa de Lori Lamby.

(8) Crash.

(9) Neuromancer.

(10) Como uma certa vez li, numa antologia organizada por Celso da Silveira (Glosa Glosarum): "A cabeça quando pinta/..." (epa!)

(11) Carolina Dutra, conhecida pela alcunha de Transgressora. Ela se esqueceu de mencionar a lingüística, mas deve ter sido um lapso momentâneo devido à inclinação dela pela arte literária.

Baú de traças