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domingo, 5 de agosto de 2012

Os ventres do homem e da mulher


Esta semana, na UFRN, conversando com uma colega do mestrado, lamentando por não ter podido assistir a sua apresentação de dança do ventre (até porque ela foi chamada de última hora), tirando uma onda porque, supostamente, eu observaria os detalhes da apresentação (ela estava parada havia um ano, e eu fiz uns dois meses, aí parei por motivos que escaparam a meu controle), e eu comento que havia feito dança do ventre... Não, ela respondeu, homens não fazem dança do ventre, homens fazem dança árabe.

Breve silêncio.

Tão breve que não deu nem um segundo e retruquei: como é a história? O que é dança árabe? E por que homens não dançam dança do ventre?

O primeiro argumento dela: homens não possuem ventre, só quem tem ventre são as mulheres. Pedi que definisse "ventre": porque, até onde eu saiba, "ventre" é o mesmo que "abdômen", "barriga", "bucho" - enfim, esse espaço ocupado por órgãos variados. Ela não sabia o que era "ventre". Oi? Mas ainda arrisquei, pra ver se ela soltava algo mais consistente: arrisquei a hipótese de que "ventre" = "útero". (A princípio ela não endossou, mas viria a adotar a metonímia mais tarde. Depois disso, cheguei à conclusão de que dança do ventre é mesmo uma coisa histérica (1).). E ela dizendo que o homem não fazia os mesmos movimentos que a mulher, e depois dizendo que homens quem dançavam dança do ventre não são bem vistos e são um fenômeno marginal... Ela ainda soltou um belíssimo argumento de autoridade, segundo o qual a professora com quem fez aula tem dezenove anos de experiência. Fora de brincadeira, eu entendi aonde ela queria chegar, mas simplesmente não soltou nenhum argumento coerente. O ônus da prova cabia a ela, mas ela delegou a mim a tarefa de pesquisar sobre o assunto. O que fiz. Hora de matar a cobra e mostrar o pau.

Segundo a hipótese mais aceita, a dança do ventre teria iniciado no Egito como uma reverência às fertilidades agrícola e reprodutiva. Alguns séculos mais tarde no entanto, apareceram os primeiros dançarinos, tão valorizados quanto as dançarinas - a ponto mesmo de serem preferidos em ambientes misóginos e conservadores. Só a partir do século XIII que tanto homens quanto mulheres passaram a ser malvistos se dançassem (2). O fato, porém, é que existem mesmo danças praticadas tipicamente por homens, como o tahtib (que também pode ser dançado por mulheres). Houve mesmo época em que a dança do ventre esteve ligada à prostituição e/ou  à atividade cortesã. É bom deixar claro um detalhe: a dança do ventre, tal como a conhecemos hoje em dia, possui origem bem recente apesar de suas antecedências milenares, datando da primeira metade do século XX, com o raqs sharqi; a expressão, no fim das contas, é um guarda-chuva pra um conjunto de danças similares nos movimentos e nos propósitos (de fertilidade, feminilidade etc.), e foi criada no século XIX a partir da onda orientalista que passou pela Europa de então.

Amir Thaleb não liga pra essas distinções

Acompanhando essa hipótese, existe entre várias praticantes um apego ferrenho a essa tradição "feminilista". Só mulé dança dança do ventre, só mulé ensina dança do ventre, só mulé saca de dança do ventre - e ai do homem que disser que faz, pois será tachado de gay e despertará a ira dos maridos ciumentos, que só liberam as esposas pra fazerem aula por causa desse preconceito largamente difundido! Olha, a falta à tradição mata; quando não mata, mingua aqueles que não a respeitam. Entretanto, uma coisa bastante simples é a seguinte: há outras mulheres que simplesmente não vêem nada de mal em que homens dancem; eles são igualmente admirados e, por vezes, invejados. Há alguns que põem movimentos feminis na coreografia, ao passo que outros emprestam uma dimensão masculina à dança (3). E, como já disse, há mulheres que também praticam danças masculinas.

Tudo isso está bem longe de ser queer, naturalmente; mas é digno de nota que a heterotopia marcante da pós-modernidade, agrupando em um mesmo topos práticas tidas por distintas e mesmo incompatíveis, de alguma forma perturba os pilares dessa tradição (ou pelo menos o modo como enxergamos tais pilares). Não pretendo de modo algum refutar a hipótese de que a dança do ventre surgiu como um culto à fertilidade. O que está em questão é simplesmente reconhecer que sim, existem homens que dançam dança do ventre, independente de dançarem como mulheres ou de serem gays ou whatever. Ponto. A própria garota reconheceu, na fala contraditória dela, que dançarinos do ventre são um fenômeno marginal; mas só porque é um fenômeno marginal não quer dizer que é um fenômeno inexistente. Homens passam roupa, mulheres dirigem caminhão. Homens e mulheres dançam dança do ventre. E dança do ventre não é mais uma coisa histérica.


P.S. (acrescentado em 11 de julho deste ano): a garota conversou comigo a respeito, reforçando uma última vez que a questão dela era em torno da nomenclatura (embora não tenha exatamente gostado do modo como a gente conversou - ou melhor, como me dirigi a ela). Reafirmou que a questão da dança do ventre não é que homens sejam proibidos de dançar. Ou pior, que ela simplesmente ache um absurdo que homens pratiquem essa modalidade e os recrimine por isso - quando escrevi acima sobre homens serem tachados de gays, isso se deve ao preconceito largamente difundido sobre a dança entre aqueles que não a conhecem ou praticam, muito embora a opinião dela contribua para esse preconceito de modo mais ou menos direto. Se o texto deu a entender que a declaração dela foi homofóbica, trato de esclarecer que não foi o caso.

Com efeito, segundo essa linha de pensamento, a expressão só se aplica às mulheres, pois "ventre" lá seria a representação do útero. Ocorre, porém, que "raqs sharqi" significa simplesmente "dança oriental" em árabe. Ou seja, este texto também toma a nomenclatura por ponto de partida, pois ela também é importante; o modo como a encaramos define bastante o modo como a praticamos. Nomear e fazer não se separam de forma estanque, especialmente quando se trata de um processo coletivo. Como afirmou Protágoras de Abdera, o homem é a medida de todas as coisas.


(1) Como todos sabemos, histeria vem do grego hysteron (útero). Dizia Freud que essa doença era típica das mulheres (apesar de os sintomas também existirem entre os homens). Não estou surpreso por ver um pouco desse freudismo em certas praticantes da dança do ventre (como minha colega).

(2) Dados livremente apropriados daqui e daqui.

(3) Bom lembrar que, quando se fala de masculino ou feminino aqui, estou me referindo ostensivamente a todo um sistema taxionômico de identificação de gêneros presente no Ocidente. Estou falando da recepção da dança do ventre aqui no Brasil, mais especificamente; ainda não faço idéia exata de como esses preconceitos funcionam em outros lugares. Mas basta mencionar o fato de que o raqs sharqi já mencionado foi fortemente censurado no Egito durante parte do século XX; mesmo as mulheres não poderiam estar com o corpo bastante descoberto. Seguramente, homens que dançam dança do ventre também não são bem vistos no mundo árabe.

sábado, 6 de agosto de 2011

Sobre o lúdico na dança de salão

Meu professor de dança de salão está organizando uns bailes pra divulgar a salsa aqui em Natal, embora haja um repertório caprichado de zouk (e, em menor grau, de bachata). Os bailes acontecerão quinzenalmente no Astral Sucos, um bar na orla de Ponta Negra, em frente ao quiosque 12 (mais ou menos próximo ao Morro do Careca), das 18 às 22 horas, todo domingo. Dia 31 último foi o último baile, e estou ansioso para o próximo. (1)

Quem me conhece sabe que adoro dançar. Já fui mais solto uns anos atrás, mas balanço o corpo bastante sempre que me empolgo com a música e o ambiente. Deveria ter sido assim no baile em questão. No último baile teve mais gente, o que significa um ganho em termos de público; tava lindo mesmo de ver a galera bailando salsa e zouk. Mas o garotinho aqui ficou tão amuado no baile quanto elefante no picadeiro. Imaginem vocês que, ao final do baile, perguntei ao DJ se ainda iria rolar um pouco de bachata.



O cara botou uma canção no play, aí saí pra tirar uma garota. Na primeira tentativa, era uma conhecida; ela tava morta de vergonha e se recusou. Fiquei na minha. Daí consegui tirar uma pra dançar, mas antes disso ela fez uma careta - como quem REALMENTE gostaria que eu não a tirasse, e com vergonha pelas outras pessoas ao lado dela estarem rindo dela por dançar COMIGO. Fiquei intimidado, claro, mas a vontade de dançar era maior. Só que o pior aconteceu: tirei uma pra dançar, nada; outra pra dançar, nada; só a terceira que aceitou, e ainda assim precisei convencê-la de que poderia dançar a bachata tranqüilamente comigo, mesmo que não soubesse (quase) nada. Assim que acabei de dançar, me despedi do professor e disparei pra casa.


(Ela quer que eu vire um Carlinhos de Jesus da vida, é isso?)

Dessas três últimas garotas, merece destaque a segunda. Já no primeiro baile tive um problema seríssimo: antes que a música terminasse, ela parou de dançar, soltou um "muito obrigada", largou minha mão e se sentou. Me estarreci na hora, basicamente; mas pouco a pouco cresceu em mim um sentimento indescritível de nojo. Ora, ela continou a dançar com outros caras, e todos eles tinham um nível maior que o meu.

No entanto, meu problema não é com eles - mesmo porque acredito que, sendo capaz de dançar e tendo o desejo de me aperfeiçoar, posso também melhorar minhas aptidões bailarescas. O que essa garota fez comigo é o supra-sumo não só de falta de etiqueta, mas de tremenda falta de respeito. Há quase cinco anos, fui ao primeiro baile de salão na vida, e lá se encontrava escrito com todas as letras que não seria admissível recusar que um cavalheiro tirasse a dama pra dançar. Me diverti bastante nesse dia. Infelizmente, não foi o que aconteceu neste domingo (e, como acabo de lembrar, provavelmente aconteceu também em algum baile que fui no projeto Comunidança, quando fazia mobilidade estudantil na UFRJ em 2009). E eu tenho um palpite pra isso.

Das atividades humanas, há algumas universais, como o riso, o sexo... (2) e a dança. Acredito eu, em minha leiguice no assunto, que em todas as práticas de dança no globo envolvem um elemento lúdico. A dança de salão, em especial, tem um poder tremendo de socialização, pois seu sucesso depende essencialmente do entrosamento entre o casal que dança. Esse entrosamento não depende do nível, mas da vontade mútua de ir pra pista de dança e se divertir. E aí que tá: a garota de que falo parece que não está indo lá pra se divertir, ou pelo menos não do mesmo modo que eu. Não acredito em diversão sujeita a critérios, ou melhor, critérios esdrúxulos, do tipo "só danço com caras fodões e que saibam me rodopiar e me exibir no salão, e que de repente queiram me pegar", "só danço com gente de minha academia ou conhecidos de alguém de lá".

Meu professor confirmou a existência desses critérios, principalmente este último. E isso me deixa puto da vida, porque é muita mesquinheza de quem recusa. Me deixa triste também, já que esse lado lúdico acaba parecendo que está de lado cada vez mais. Não pensem que estou sendo ingênuo, pois sei que nem todo mundo vai a um baile de salão exclusivamente pra se divertir. A dança de salão mexe mesmo com a libido, e já fiquei com mulheres apenas por dançar, sem nem trocar uma única palavra de paquera; nossos corpos falaram por si sós. No entanto, é de uma rudeza impressionante restringir ao outro a possibilidade de se divertir, por achar que ele não possa oferecer o que se deseja. Não creio que eu me torne um instrutor de dança, mas gostaria de ver um salão diferente, no qual estejam presentes pessoas com vontade de dançar, de se divertir e de proporcionar o que possuem de melhor. Será que estou exigindo demais daquela garota?

P.S.: segue o belíssimo poema de Ranyane Melo, escrito em parceria comigo. (Na verdade, ela enxertou umas frases que eu disse a ela, transformando-as em versos; mas se ela acredita que sou co-autor, quem sou eu pra dizer que tá errada?) (3)

O Baile

São em dias como este
Que nos imagino
Como se estivéssemos indo
A um baile
E enquanto a música toca
Penso no calor do meu corpo
Juntinho ao seu
Penso na sincronia dos nossos corpos
Na sintonia dos afetos
Na sinergia dos pensamentos
Penso em tudo
Que deixamos pra depois.

(1) E aqui acaba a propaganda.


(2) Jura?

(3) Para refletir: seria ela então a co-autora desta postagem?

Baú de traças